Eu tenho um amigo chamado Gui

O conheci pelo acaso. Acaso não, a gente até tinha uma rede de amigos em comum, aquela coisa da vida que nos faz cruzar caminhos. Daí ele apareceu se oferecendo pra me ajudar nuns projetos aí, pegar carona pra ir por aí, me deu a mão pra superar umas dificuldades aí, tomou uns porres comigo aí, me ouviu chorar por uns caras aí, se tornou fundamental. Conheceu minha família, meus amigos, meu cachorro, meus segredos e as minhas versões fortes, sensíveis e até as sonolentas. Dividimos a conta do bar, do café com canela e o travesseiro pra um cochilo da tarde na minha casa, depois do almoço de domingo ou depois da balada do final de semana. Brigamos, pelo filme no cinema, pelas escolhas da vida um do outro, pelas amizades que a gente vai fazendo, pelo sentimento de cuidado que vai se infiltrando na nossa pele e se torna tão essencial que vira parte da gente.

Ele foi até outro estado pra me dar um abraço e tomar um café porque eu andei me sentindo sozinha. Retornava minhas chamadas pra jogar papo fora, mesmo detestando fazer ligações. Me mandava ficar forte, respirar, pensar na vida que precisa evoluir. Me apoiou quando decidi me mudar. Me apoiou quando deu na telha que era hora de voltar pra casa. O abraço sempre é o mesmo, ainda que já fizesse um tempo que não nos víamos. Chorei por ter que me despedir dele, como quem se despede de um irmão. Ele tem esse cheiro de quem pode ficar na vida da gente pra sempre, porque nasceu para fazer parte da nossa história. A família dele me conhece, virei amiga da irmã, a mãe me trata de maneira incrível e o pai dá dicas para melhorar meu carro. O cachorro dorme no meu colo e o irmão mais novo me ensinou a jogar bilhar. Tem roupa minha no armário dele, tem roupa dele nas minhas gavetas e no celular tem um apelido com apenas 3 letras. Eu tiro sarro do seu cabelo e da sua barba- que barba? A gente toma café com canela no drive quando faz frio, cerveja quando a vida tá difícil e drinks estranhos em bares da cidade. Outro dia disse que não gostava de sardas na pele das meninas. “Mas eu tenho!”, falei dando um soco em seu braço. Só que em mim tudo fica bonito, segundo ele. “Viu que fulana fez tal coisa?”, “Eu vivo fazendo isso, menino!”, “Ahhhhhhh, mas você pode”. E isso, ao meu ver, é amor. Eu sei que é. Eu posso tudo! Posso fazer o que eu quiser, ele vai me aceitar. Posso chegar com cara de cachorro arrependido todos os dias por cometer os mesmos erros, ele vai me dar a mão. Posso mandar ele parar de gostar das meninas erradas, ele não vai parar. Avisar que essas garotas que ele fica procurando não servem pra ele, mas ele continuar caindo na mesma cilada. É, ninguém é perfeito mesmo. Mas a gente dá errado junto, isso basta.

Daí o povo pergunta, na cara dura: Mas nunca deu um beijo nele? Não. Nem tentou? Não. Mas vocês nunca ficaram?? Como assim?? Assim, ué. A gente sente saudade, liga pra saber se tá tudo bem, manda besteira no WhatsApp, fofoca do cabelo da namorada do amigo, das decisões alheias que a gente faria igual. Se cuida, briga, xinga na cara, manda dormir, fica sem se falar por uns tempos. Planeja viagens, convida pra ir nas festas da família. Manda beijo na vó e pergunta do cachorro, “diz pro seu irmão que eu passo lá pra jogar com ele semana que vem”, “cê acha que esse vestido me deixou gorda?”, “seus peitos ficam estranhos nesse decote”, “deixa eu dirigir seu carro?”, “minha barba tem essas falhas, é estranho né?” Então ele é gay? Não. Então ele é feio? Também não. É que sabe o que acontece? Eu quero ele pra sempre na minha vida, tipo, uns 100 anos. Quero ele de cabelos banquinhos, me olhando nos olhos e me perguntando se eu tenho certeza do que ando fazendo. Quero ele pagando meu café no drive, derrubando comida na camisa, almoçando aqui em casa com a minha família e a gente se orgulhando de ter vivido lado a lado, torcendo pelo outro. Quero ele com suas camisas de estampas retrô, suas calças vintage e fazer mais viagens ao seu lado, dessas que nos marcam. Nossas fotos no porta-retrato, tipo aquela que tem ali na minha cabeceira. Quero que esse final de semana, quando a gente sentar lado a lado pra colocar o papo em dia, ele leia essa simples declaração de amor e me diga “você escreve muito bem, cadê o livro?” E eu me sinta em casa, como só com ele eu consigo me sentir. Que eu possa deitar a cabeça no seu ombro, respirar em paz porque nessa vida louca a gente não se perde. Nunca vai se perder. Quero que ele saiba, hoje e pra sempre, que uma das melhores coisas que eu poderia ter ganho nessa vida é essa mania que ele tem de me fazer sentir sossego por encontrar alguém tão inconstante, indeciso, torto e tempestuoso como eu e perceber que eu tenho um lugar bom para me encontrar. E que a gente nunca vai perder a liberdade de se amar de maneira honesta, com gosto de café e canela. Cerveja das boas. Amizade das raras.

O conheci por acaso. Mas eu só o mantive aqui, por amor.

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