A puta da rua suja

Ela queria ter dado um beijo na sua mãe, ter feito um carinho no seu cão. Ela queria ter tido a oportunidade de correr e pular para o colo do seu pai hoje às seis horas da tarde. Queria ter ouvido dele – em meio às risadas – que era pra ela ir com calma pra não quebrar a coluna. Se ela pudesse escolher, hoje teria acordado cedo e ido à escola. Reclamaria sobre a obrigatoriedade de acordar cedo. Falaria sobre o crush com as amigas, ririam juntas.  No intervalo pediria um lanche. No fim da aula passaria no shopping para almoçar no McDonald’s. Pegaria um cinema. Iria pra casa correndo antes do seu pai chegar pra ele não brigar com ela. Mas se ela só pudesse escolher duas coisas, escolheria ter dado um beijo na mãe e corrido para os braços do pai. Mas ela não pode.

Seu pai foi morto pela polícia quando ela tinha apenas dois anos e desde então sua mãe vive bêbada. Ela não tem cão, sua casa malmente cabe ela, sua mãe e seus seis irmãos. Ela não pode ir à escola porque costuma chegar em casa perto das oito da manhã, horário que termina os programas com os homens brancos de classe média. Ela tem apenas quatorze anos, e nenhum futuro pela frente.

Ela tem a pela escura como a noite, o coração doído como a morte, uma dor constante e eterna. A primeira vez que se prostituiu foi pra comprar remédios para o seu irmão mais novo. O garoto tinha apenas um ano e três meses, “estava gripado” e no posto de saúde da região onde morava os remédios estavam em falta. O prefeito disse no jornal que o problema com o abastecimento de medicamentos era a falta de verba. O prefeito estava sendo investigado por desvio nas verbas de saúde. Ele negava, dizia ser um homem temente a Deus, e que as acusações eram artimanhas do inimigo para o desmoralizar.

A garota então foi para a avenida principal perto de sua casa pedir dinheiro no semáforo. Ganhou algumas moedas, alguns olhares, janelas fechadas e uma proposta. Entra aqui, faz tudo que eu quiser que te dou dez reais, disse o homem do carro de luxo. A garota tinha apenas nove anos e entrou no carro daquele moço que tinha bafo de cigarro. Dali ela saiu suja, mais suja que sua rua que é a rua mais suja do bairro.

A garota mora na beira de um córrego, na zona afastada do centro da cidade. O seu irmão não estava com gripe – como havia sido dito pelos médicos que o atenderam em menos de três minutos, depois de uma espera de cinco horas no posto de saúde. O garotinho morreu de pneumonia. Junto com a morte dele veio a morte da garota, que agora vive entrando nos carros de vidros escuros na rua principal do seu bairro. Ela morreu e vive dando seu dinheiro pra sua mãe. Ela morreu e vive sendo molestada pelo seu vizinho que diz que prostituta não tem o direito de negar sexo pra um cara tão legal quanto ele. Ela morreu, e todos os dias milhares de garotas morrem como ela.

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