Deuzulivre da morte essa sociedade que só faz correr

O garoto passou correndo por mim como um raio, algo o angustiava, algum compromisso com ar de urgência deveria estar atormentando aquela mente. Quem nunca correu na rua que atire a primeira pedra. Eu já corri, e muitas vezes. Corri pra pegar o ônibus – a vida é cheia dos seus compromissos e perder tempo esperando o próximo busão que só vem de cinco em cinco minutos não dá. Eu já corri pra chegar primeiro – deuzulivre ser a mulher do padre. Já corri pra não bater o ponto atrasado no trabalho – deuzulivre² levar bronca do chefe. Já corri porque apertei a campainha. Já corri muito pra pegar a bola antes do carro. Ontem mesmo eu corri, pois iria chover. E aquele garoto correu hoje, só que o carro na rua também corria. Quando os corredores se encontraram eu virei o meu pescoço mais rápido que a velocidade da luz (pelo menos foi assim que eu senti) e deu tempo de ver aquele corpo virando uma, duas vezes no ar e se debruçando no asfalto com tanta força que bateu, voou um pouco e voltou. O menino atordoado tentou levantar, e desse vez quem foi rápido como um raio fui eu, e o obriguei a ficar deitado no chão. Pois é, eu corri pra acudir o corredor que foi atingido pelo outro que corria, que perigo!

Logo uma multidão também correu para se aglomerar em torno do perdedor da vez. Seu burro, onde já se viu correr assim na rua? Disse a mulher que correu tanto pra chegar até o local que foi a que tirou o primeiro lugar. Quem manda correr assim? Deve ser maluco. Disse o outro moço que correu atravessando a rua louco pra pôr o dedo em riste em direção ao perdedor da vez. Quem atropelou esse rapaz, quem? Disse o homem que deve ter saído do bueiro correndo, furioso por um carro correr em plena via de carros que só correm. Pelo menos assim aprende a não correr mais, disse outra moça que ainda estava ofegante ao chegar ao local do acidente. O perdedor estava ali, no chão, sendo julgado por todos, talvez até mesmo pelos deuses. O outro perdedor estava em pé, com o olhar tão perdido quanto o garoto no chão, mas pelo menos tinha condições de falar ao telefone com sua esposa, e contar que na corrida de hoje quem perdeu foi ele.

Correndo também veio a ambulância, que retirou o corpo magrelo do garoto do chão e levou quase que voando a algum hospital ali perto. O motorista estava ainda em desespero, precisando que alguém o dissesse que iria ficar tudo bem, que ele não teve culpa. Mas a multidão precisou sair correndo daquele lugar de miséria, enquanto ainda julgavam a atitude maluca daquele garoto que se aventurou em correr no meio da rua. Enquanto isso eu fiquei ali, parado, incrédulo da hipocrisia de tantos corredores. Fiquei ali tentando adivinhar o que tinha feito o garoto correr em direção à lataria daquele carro corredor. Pensei que poderia ter sido eu, correndo atrás da bola, fugindo da campainha ou da bronca do meu chefe. O ser humano é cruel, não perde tempo, logo vai correndo pisar no miserável da vez. Hoje aquele motorista perdeu, o garoto perdeu, a humanidade perdeu mais uma oportunidade de correr para fazer o bem sem olhar a quem. Pensei em ir consolar o motorista, mas tive que correr pra escrever essa crônica. Deuzulivre.

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