O risco de se relacionar com escritores

“Escreve sobre isso?”

Todas as vezes que eu te vi, desde que o primeiro beijo aconteceu, eu jurei que não escreveria sobre você. Ao todo já foram várias linhas, vários cabernet e vários juramentos quebrados. Nessa lista de hipocrisias sentimentais, entram também as promessas de que eu vou ficar 5 metros de distância do teu abraço e dormir sem teu gosto nos lábios. Nem sempre dá certo, mas quando dá, eu finjo que gosto. Não acredite, por favor. Mas daí você vem com teu olho que brilha e me solta essa: Escreve sobre mim hoje? Escreve sobre isso? Escreve? E eu perco as forças. Como não fazê-lo? Como não lembrar de você rindo sem graça e assumindo que não sabia como puxar assunto e acabou me mandando apenas um “x” numa mensagem aleatória, num final de domingo.

Logo você, que sempre sabe o que dizer?

Logo você, que sempre tem respostas pra tudo?

Logo você, dono de tantas razões?

Perder a palavra logo para mim? Como não falar disso? Me fala.

Por isso eu digo para você e para os outros seres que lerem minhas breves palavras: Cuidado com escritores! Pegar na nossa mão nunca será apenas-pegar-na-nossa-mão. Esquece! Escritor vê amor onde não tem, vê história onde não contaram, faz a boa e velha tempestade em copo d’água, sim. Não, a gente não é do tipo sensível que qualquer coisa poderá nos causar danos irreparáveis, mas qualquer coisa nos causa contos, crônicas e poesias. A gente escreve para aliviar de nós essa coisa de sentir tudo o tempo todo, o mundo inteiro pulsando em nossos olhos e a gente não sabe se toma mais um comprimido de Ritalina ou senta e escreve tudo, da maneira mais inteira possível. Os detalhes nunca passam despercebidos. Os beijos nunca morrem. Os amores nunca acabam. Eu escrevo com todo prazer sobre o seu cabelo, sobre o teu sorriso meio torto de timidez, sobre você não saber fumar direito. Falo mesmo, da sua boca, da sua sombra e do meu prazer em ver você abrir garrafas de vinho com abridores rústicos. Me julgue por isso se quiser. Mas eu tenho um medo imenso de um dia perder a lucidez e acabar te perdendo nisso tudo. Eu não sei se conseguiria me encontrar de novo se não tiver os teus detalhes, os dias que temos divido e que eu venho guardando como lembrança. Eu não posso, de maneira alguma, esquecer da cara da atendente da papelaria admirando o modo como nós não temos medo de sorrir um para o outro. O mundo anda tão cheio de gente dizendo meias verdades, que eu preciso registrar em algum canto por aí essa nossa facilidade em entender o que o outro não diz, essa abertura em perguntar sem receio, pedir sem prosa. Então, é claro que eu escrevo sobre você e sobre toda essa sensação de sossego que eu tenho quando é teu rosto do outro lado da mesa, teu cheiro do outro lado da cama e sua voz do outro lado da linha.

Então, não se preocupe, meu bem. E vou escrever sobre você e para você. Seja nos sites da vida, nos muros da cidade e na minha pele. Vou falar de você, das maneiras mais subentendidas e fortes que eu conseguir. Proteger a tua identidade com as minhas cartas. Vou disfarçar a minha necessidade de tocar a sua nuca, com delicadas frases bem pontuadas. E filmes, todos eles, irei resenhar e indicar e deitar no teu peito para ver os argentinos enquanto bebemos os vinhos chilenos e criar mais um punhado de textos por causa disso. A gente pode continuar fazendo projetos vazios, eu posso idealizar a vida que a gente não vai ter, a casa e os cães, eu tenho tudo aqui, vai dar um livro imenso e eu sei que você vai querer comprar. Toda vez que você me pedir, irei escrever sobre cada uma dessas coisas. Sobre o tempo, o ar, o vento, as mensagens sem nexo. E quando me faltarem palavras, prometo escrever em outras línguas e depois criar um novo vocabulário e quando mais nada me restar, meu silêncios estarão falando sobre você. Pode pedir, pode olhar com aquela cara de menino que descobriu um novo prazer, “escreve?” Escrevo. Pra alegrar teu dia, pra salvar tua vida, pra te contar uma verdade mais difícil, uma novidade vazia. Escrevo pra te dar assunto, te dar motivo pra querer beijar a minha boca, te dar um rascunho e principalmente: Traduzir o que você não conseguiu expressar quando enviou “x” no meu celular e me fez sorrir.

Enquanto isso, você beija minha testa sem avisar. Isso mesmo. Tira meu ar de novo com esse gesto simples que você costuma fazer sem avisar. Prometo, escrevo sobre isso também, mais tarde.

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2 comments

  1. Ja perdi a conta de quantas vezes já li os seus poemas e comecei a chorar, eles são tão profundo e amorosos..As vezes eu paro e penso o que seria da nossas vida sem os belos livros de Machado de Assis, Clarice Lispector, Nicholas Sparks entre outros.. seria um mundo sem cor.. E eu agradeço a vocês que tem essa mente brilhante pra escrever essas coisas..Eu amo os seus poemas.. Não tem como descrevê-los em uma só palavra.. Você é maravilhosa! Um grande Beijo..aguardo ansiosamente para o próximo poema!♡

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    • Alice, querida. Me desculpe a demora em responder seu comentário… mas eu sou bem lerda para esse tipo de interação. Mas sabe, ler isso, no dia de hoje, me deu um calor no coração e me fez já te amar, sem te conhecer. Obrigada pelas lindas palavras e por gostar do que escrevo. Espero que você continue acompanhando minhas postagens! Um grande abraço e muito amor em sua vida! Beijos

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