Eu e a máquina de café expresso

Há algumas semanas voltei para Curitiba e nesses dias precisei trabalhar em casa. O local onde irei montar meu escritório estava com algumas burocracias e em fase montagem, coisa simples, só umas 3 semanas trabalhando no meu quarto- iam até parecer umas férias, se você for pensar bem. É fácil, eu respeito meus horários de escritório e depois das 18h eu volto a ser a moradora e posso assistir minhas séries, ler meus livros. Não tem como errar, é só separar bem. Coitada de mim em pensar assim. Coitada de acreditar que eu conseguiria voltar ao antigo hábito que tive no começo de carreira onde eu fazia freela deitada na cama. O que eu não sabia é que meu pequeno inferno estava só começando. Não, não tenho problema algum em conviver com minha família e tudo mais, mas o problema é que somos barulhentos, gostamos de uma festa e minha casa é “casa de vó”, ou seja, sempre tem gente. É uma delícia, sério mesmo, mas profissionalmente se tornou meu maior veneno e isso deve ser consequência de um tempo me apaixonando por uma rotina disciplinada e coordenada.

No primeiro dia fecharam a porta do meu quarto e falavam como se estivessem num velório. “Vai atrapalhar ela…”, diziam. Eu, na maior educação dizia que tudo bem, podem se sentir à vontade, eu consigo trabalhar com barulho- até porque, eu sou muito barulhenta. Mas o problema real de trabalhar no lar, é que chega um momento em que você já não sabe mais onde guardou suas anotações, os post-it se perdem junto com os porta-retratos, os cadernos que eu coloco a vida inteira já estavam ao lado da televisão da sala, as agendas físicas- não sei mesmo como tem gente que consegue trabalhar com tudo eletrônico- nada no lugar. Nada tem lugar aqui. Aqui não é um escritório! Quando você percebe seu lápis está ao lado do seu hidratante pra cabelo e a gaiola da sua ramster ao lado do computador que já ficou cheio de ração que ela jogou pela portinha. Um caos. As reuniões por skype com o fundo de panela batendo na cozinha, o telefone tocando na sala e os gritos da minha avó: “Era pra você, sobre o cartão de crédito” e o caminhão do gás passando no portão. Como se não bastasse, a gente está em reforma. Tudo o que você imaginar está fora do lugar, tem meia na cozinha e panela ao lado das camas. Eu até tentei fazer um canto saudável onde eu fecho a porta e me concentro, mas você já ficou num cantinho de 3 metros, o dia inteiro? Não dá. Eu tenho claustrofobia e a janela me pareceu pequena. Sem falar nas sutis interrupções de “você viu que a filha da fulana quebrou o braço?” e “vai passar um filme legal na Sessão da Tarde”, que não são tão atrativas quanto a equipe de trabalho que ficou em SP. Também tem o meu vizinho que gosta de tomar uns goles  no meio da semana e gritar como um louco, pendurado no muro que dá exatamente onde eu coloquei a mesa para trabalhar. O cachorro late, meu coelho foge, começam os pedidos de ir ao banco- porque é ali do lado, nem vai demorar- as visitas de meio de semana que você acaba atendendo porque gosta de todo mundo. Difícil, é um leve padecer no paraíso. Fico pensando em mulheres mães, que trabalham em casa e precisam coordenar muito mais do que eu. Filhos, roupa, almoço e lanches, brincar com os pequenos e afins. Nossa, só de pensar eu já desmaiei de exaustão.

O paraíso de trabalhar na minha cama terminou depois de apenas duas horas sentada. Sem máquina de expresso não existe senso criativo, esquece. O café de casa é uma delícia, mas onde está aquele gostinho de escritório que só lá em SP eu sentia? Comecei a ter nostalgias, lembrar dos cabos de computador pelo chão, das conversas de meio de expediente, as piadas dos colegas de trabalho, as brigas do “desliga e liga ar condicionado” pedir para os estagiários trazerem mais café e ouvir “não” como resposta- pois é, não se fazem mais estagiários como antigamente. Ah, que saudade de ter que comprar o lanche da tarde na vendinha daquele homem com cara de quem ainda mora com a mãe e tem 55 anos! Ah, que saudade da cozinha que era motivo de briga de todo mundo e que no final sempre tinha uma boa alma pra lavar a louça da galera. Pois é, meus caros, eu sinto falta até de pegar ônibus lotado em São Paulo e ficar presa no congestionamento. Começo a ver as camisas sociais nos cabides, me deprimo. Me olho no espelho, trabalhando de pijama, quase choro. Outro dia me vesti como se tivesse indo trabalhar e fui comprar leite no mercado, só pra matar a saudade. A questão do tão sonhado homeoffice que anda tão na moda, é que a gente precisa de foco, organização e equilibrar essa coisa de resistir à vontade de tomar banho quatro da tarde porque está 30ºC, segurar a onda de ir na geladeira e abrir uma cerveja no meio de um conteúdo importante que vai ao ar daqui a pouco, acompanhar o vinho que a minha avó toma antes do almoço para abrir o apetite e ficar só na primeira taça. Tem que se segurar pra não topar fazer um happy-hour com os amigos 3h da tarde de uma segunda, sei lá, não ouvir a propaganda do mercado anunciando promoção de tapioca e continuar concentrada nas tabelas e artigos que você tem que escrever. É difícil e eu não tenho vergonha alguma de dizer que simplesmente não nasci pra isso e odiei a experiência e não vejo a hora de sentar na cadeira nova que meu chefe vai comprar pra mim. Inclusive, comprei um grampeador. Só pra me sentir mais office. Tem gente que consegue sentar numa rede e ganhar 7 milhões, colocar o pé na areia e com o barulho do mar tocar sua empresa, seu blog, seu site e sua vida. Eu não, eu preciso de um local que eu não me sinta “em casa” e assim separe fisicamente meu horário de trabalho da minha vida pessoal, sentir que eu estou mesmo cumprindo meu contrato.

Quando ouvi no telefone o rapaz dizendo que na segunda eu já posso começar no escritório, me emocionei. Já sinto o cheiro de papel sulfite na impressora, já ouço os telefones tocando e já planejei até a roupa. Vou ter que levantar mais cedo, me maquiar e usar roupas desconfortáveis e quentes em pleno verão. Não ligo. Não dou a mínima por ter que enfrentar trânsito diariamente pra trabalhar e nem ligo de ter que fazer marmitinha para passar o dia. Sabe, a vida também é feita de pequenos incômodos que nos fazem sentir vivos e nos viciam. Sou viciada no ambiente corporativo, descobri isso em apenas três semanas trabalhando de havaianas e achando aquilo extremamente errado para mim.

Pois é, descobri mais uma paixão. Afinal, o que seria de mim, sem a boa e velha máquina de expresso?

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