Se eu te perdoar

“Me perdoa”, você fala com a voz calma.

Como se eu pudesse desligar um interruptor e ficar no escuro, não ver teus erros. Como se eu pudesse mudar uma ou duas cadeiras de lugar e a casa parecesse redecorada, a vida mais limpa, minhas escolhas mais dignas. Cê fala de perdão como se eu conseguisse ignorar os fatos, esquecer os rostos, deletar os nomes. Eu sangro por uma ferida que quanto mais parece ter chego ao seu limite, mais funda se mostra. Um abismo que eu carrego na voz, no sorriso e nas linhas do meu rosto. Cobri você com todas as escusas possíveis e todos os desejos de bonança que a minha doutrina prega, que eu acredito ser a solução, mas não consigo. Eu não consigo perdoar você.

Porque se eu te redimir, você ganha. É uma alforria que eu não estou pronta para te conceder, um consentimento que eu não aprovo, não gosto, me trinca os dentes. Se eu disser que tudo bem, pode voltar e sentar ao meu lado, você ganha um carinho que não merece e não fez questão de cuidar. O meu perdão limpa a sua pele e te deixa livre para machucar dolosamente outro coração, ou pior, o meu coração- pela enésima vez. Eu preciso ir embora, deixar você num passado que eu fico olhando criar cicatrizes. Mas você não seca, você não sai. O seu beijo ainda está quente, aqui, em mim. Eu não consigo chegar perto o suficiente e pedir resgate, porque se você me resgatar eu te perdoo e se eu te perdoar eu corto a linha fina que ainda nos une. Une? Uniu? Estivemos unidos um dia? Não sei mais. O meu não-perdão me cega as certezas. Eu não sei mais datas no calendário e não consigo saborear nada com certeza. Não confio. Em você, em mim, na cor das paredes, nada e nem ninguém consegue me despertar nenhum tipo de confiança. Você destruiu tudo, cada centímetro do que você conseguiu construir em mim foi destruído e agora é um amontoado de desilusões que me lembram diariamente o quão longe eu fui e agora não sei mais voltar. Então, não, não tem perdão para você hoje e talvez na semana que vem ainda não haja. Me julgue, pode julgar. Me coloque em praça pública e me diga o quão errada eu estou, o quanto estou envenenando a minha alma com isso, com essa mágoa que não tem data de partida. Mas eu continuarei olhando para você e balançando a cabeça em negativa: Não.

Ainda que sonhar contigo me destrua o dia, ainda que acreditar que tudo isso tem sido só um pesadelo e daqui a pouco você me acorda e diz que esqueceu de me avisar que era a hora de despertar. Ainda que eu olhe para os locais públicos e espere te ver acidentalmente cruzando o meu caminho. Ainda que eu te veja em outros rostos, converse com a sua imagem na minha mente, escreva e escreva, fale e fale sobre cada um dos seus detalhes. Ainda que hoje, pela tarde, a única coisa que eu queria nessa vida era te ouvir dizer que tudo bem, foi só mais uma fase ruim da gente. Não. Ainda que toda a minha essência tenha suas marcas de uma maneira tão profunda que eu não consigo me perdoar, ainda assim, não. Não posso te deixar sem esse efeito colateral do meu amor que se tornou a face da minha ira, da minha desistência. Você tem que sentir que eu ainda sinto. O quanto eu ainda sinto. O quanto eu sou capaz de sentir por alguém. Você precisa olhar para o lado e sentir esse vazio imenso que eu espero ter deixado. Essa sala imensa que se instala dentro de nós e que eu vou enfiando gente, porres e desilusões, para ver se a vida cria um sentido. Precisa cavar mais fundo dentro do ego para achar alguma coisa para se orgulhar quando se olha no espelho, exatamente como eu tenho feito. Você precisa entender isso tudo, esse turbilhão, esse furacão, esse meu fracasso em conseguir odiar você de alguma maneira. Porque se você for perdoado e simplesmente não souber de nada disso, eu surto. Eu aumento as doses de calmantes, dos remédios para ansiedade, eu bato tudo com vodka e dou um jeito. Se você me olhar nos olhos de novo, me pedir perdão como se eu conseguisse fazê-lo com nobreza e altruísmo, eu te perco de vez. O assunto termina. A porta fecha. Você vai. Eu fico e pronto, ponto.

Então, por hoje, não me pede absolutamente nada. Por hoje, não. Eu ainda preciso entender se pode existir amor no meio de tantos erros. Eu preciso encontrar em mim algo que ainda seja claro e bom a ponto de te deixar seguir, me deixar partir. Nos redimir, enfim.

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