Ansiosa e medicada por sentir demais

O outro lado da mesa, vazio. São três da manhã. Meu copo sozinho lembra teu jeito sem jeito de tomar cerveja naquele nosso bar secreto. E eu aqui, sozinha, te imagino em outro lugar longe do meu alcance. Penso em ti num outro lado de mesa que não vai te querer dentro da pele, entrelaçado nos dedos às três da manhã. Nem vai querer fechar a pálpebra bem forte pros olhos não saírem rolando, quando você deixa o amor cair um pouquinho do canto da tua boca e eu fico salivando. O inverno passou, um dia inteiro passou, o ano faz brincadeira no meu calendário e você é uma sombra do outro lado da mesa que ainda me parece sorrir. E reclamar dessas coisas podres que o mundo tem, mas você tá sem saco e sem vontade de explicar. Somos insones, lembre-se. A gente sai enfiando comprimido goela abaixo, mas na verdade só precisa de alguém tão insone quanto para conversar sobre tudo. Sobre nada. Ficar em silêncio.

São nessas solidões de copos e mesas e sombras na madrugada, que viro companheira de mim. Sem saco e sem vontade de mudar a posição das coisas que a gente não decide, vou indo em doses, horas lícitas, horas receitadas. Desfragmentando desejos, os inibidores vão fazendo seu trabalho de nos fazer acreditar que agora somos normais. Que mentira calórica, vira tudo em junk food no final das contas. Nas minhas mentiras saudáveis, tiro tuas verdades- já que resolvi amar um insone, como eu. Tento te entender mesmo quando nem você me entende. Tento curar meus gemidos quando não é o teu som portão adentro, voz no outro lado da linha. Meu coração é ladeira abaixo, que debaixo dos teus pés quer virar meio centímetro de passo. Meu mundo é menino sozinho com a bola na mão, esperando alguém pra jogar. E você é um eterno pedido de desculpas pro menino, querendo jogar, mas não pode. Você é uma porcentagem que eu finjo ser menor, ser mais amena, não ser nada. E você não acredita, vai lendo, vai subindo mais um bocado, encostando num lugar mais profundo, juntando as minhas peças, me fazendo não precisar de nenhum remédio ou diagnóstico. Você me cura, pouco a pouco. Não ligo, não me importo de deitar no seu peito e só então conseguir respirar de verdade. Eu já disse isso? Que quando você me abraça, parece que eu respirei pela primeira vez na vida? Ok. Me ridicularize por isso depois, eu deixo. Mas, eu vivo uma vida com a musculatura trincada e quando te vejo, só consigo sorrir. Que bobagem. Uma tremenda e insone bobagem.

Daí, para te estragar um pouco dentro de mim, hoje pensei: Você nem é tão belo assim. Talvez seja aquela tua coisa de nunca conseguir ficar, tipo eu que tô sempre indo. Mas não, teu cabelo emudece a gente quando fica gotejando depois do banho. Então pensei, ‘é só isso também.’ Mas tem o teu olho- sobre o qual eu já escrevi mil vezes- e então eu terminei a lista. Mas não, tem o teu dedo que acaricia meu rosto e me faz fechar os olhos. E teu queixo que você joga pra frente quando tem razão. E a barba que você vive reclamando. É, talvez você seja belo mesmo e quando eu fico ansiosa, insegura e com medo, é só isso que me acalma. Mas ainda assim, nem tanto. Porque o amor é mais do que teu queixo, teus cantos e teus cabelos com gotas. Mais do que tua ironia perigosa que atira sem pensar nas vítimas. O amor é mais do que o canto da mesa que você ocupa, mais do que teu beijo que coloca meu corpo em espasmos. É detalhe que mora nos nossos espaços que pouco a pouco, ou do dia pra noite, agora têm seu nome. Mas você pareceu não se importar quando eu contei sobre a magnitude da paz que você me gera. Foi então, nesse dia, que pela primeira vez eu me magoei com você e descontei novamente nas doses, noites sem sentido e sem lucro. Que pena, você deveria ter visto.

Mas olha, mesmo o amor sendo mais, esse pseudo-amor que parece estar em nós e que Platão tentou explicar, mas a gente preferiu ficar com a teoria de Aristóteles, eu consigo te admirar e agradecer de certo modo por você se sobrepor ao danos psicológicos que o mundo me causa. Me dá sabor nas horas sem ti, lembrar de quando você me disse para não ter medo, você está aqui. Me dá prazer em estar do outro lado da mesa que você divide, porque eu sei que será mais uma memória que protegerá minha sanidade. Esse amor que não pode te deixar aqui, mas ainda assim não me deixa e muitas vezes é só o que me salva.

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