Eu finjo que não te amo, para poder te amar em paz

Eu te conheci como quem tropeça no meio do caminho e se depara com algo eterno. Assim, como se as minhas cicatrizes não fizessem diferença, como se a minha falta de disciplina não fosse um problema e então eu consegui ser enxergada com a essência, sem subterfúgios. Você traga o seu cigarro, chuta uma pedrinha no estacionamento do bar e me agradece por isso, pelas regras quebradas e pelos dedos que não são esticados nessas horas de silêncio, etílicos e alinhos. Eu respiro. Querido, eu enlouqueci quase todas as noites depois que você me tocou profundamente com seu discurso de dor e sorte. Eu consegui enfrentar tantos demônios porque eu segurei a sua mão numa noite fria. Abri meu casaco, meu corpo, meu colo e o lado da minha cama, só por você. Então, me diz o motivo de você não ver? De você não me pegar nos seus braços e confirmar o óbvio, que eu não preciso ser de mais ninguém? Sabe, você pode fazer o que ninguém mais pode, o que eu não quero permitir que mais ninguém faça, mas você prefere não ver. Você pode ficar e entrar onde todos eles querem e que eu não deixo. Não abro. Você prefere se abrigar nas suas escusas enquanto eu vou destilando emoções em bocas que não me têm de verdade. E eu me vejo permissiva. Compassiva. Dói, mas eu tô aqui, em pé, tentando andar no rumo contrário do seu para ver se funciona mesmo essa sua teoria de não me prender, mas me abrigar mesmo assim.

No final do porre eu sempre constato que eu não posso viver uma eternidade sem sentir sua acidez nas palavras e doçura nos toques. Não posso. Não quero. Prefiro te esperar mês após mês, voltar do outro lado do oceano ou do bairro. Prefiro deixar sempre um espaço na agenda, para caso você decida puxar assunto sem precisar e a gente consiga se ver, eu falando minhas neuroses enquanto você olha meu rosto pálido, minhas insuficiências e sorri. Sorria mais vezes pra mim, por mim e comigo. Por favor? Cê já percebeu que eu nunca costumo te pedir muito? Só mais uma dose, mais 10 minutos e um sorriso? Vez ou outra, peço um beijo, mas ultimamente nem isso, ando tentando mostrar pra você que é mais do que a emoção da pele, que é mais do que qualquer um possa entender e sentir. Eu preciso de tão pouco de você, só um afago e um filme bom na televisão, você manuseando o abridor para tirar a rolha do cabernet e depois de algumas taças, colocar minha cabeça no seu peito. Por que raios você não percebe, que eu não te peço nada além do simples? Me perdoe, eu sei que prometi não afundar e entregar as chaves de tudo assim, mas eu acabei deixando o tempo me mostrar o que você tinha de melhor e comecei a sentir que isso poderia me servir de lar. Me permiti gostar da sua decoração, chamar seu nome enquanto eu durmo. Parece ridículo, mas toda vez que eu me sinto com algum tipo de dor, medo ou ansiedade, eu penso em você dizendo que não vai me deixar e então eu tô em casa. Segura e compreendida. É como se nesse mundo eu tivesse encontrado um local de repouso, mas não posso ficar. Você não deixa, eu insisto mais um pouco. Metade de mim segura as vontades dentro da pele e a outra metade já está buscando seu cheiro em algum lugar.

Então, sigo assim, nômade de mim. Não consigo esticar os braços e te obrigar ficar, me retribuir em número, gênero e grau, porque não sei amar assim. Não aprendi amar obrigatoriamente e sair cobrando a tão famosa reciprocidade. Porque, ao meu ver, resiliência é um exercício e eu venho fazendo isso de maneira honesta e positiva. Eu sei que por enquanto- nesse momento exato- você é um amor com tendências permanentes, mas também sei que isso passará no imperdoável e abrangente tempo que nos engole, cura e mostra as verdades nuas. Tudo passa. O desafio está em conseguir me reconstruir depois disso, depois das passagens meteóricas que costumam acontecer em minha vida. Mas não ligo, não me importo e não me iludo. Aprendi que nessa busca implacável de tentar entender o que existe entre os mistérios do seu sobrenome e os cantos escuros do seu coração, que nos fim algumas pessoas cruzam nosso caminho para nos fazer olhar pra dentro e, consequentemente, acabar conhecendo um pouco mais sobre nós mesmos. A gratidão é um dos meus eternos presentes à você, porque jamais poderia me arrepender de ver tanto outono em um olho só. Será sempre o meu modo de te mostrar o caminho de volta pra casa, de me recuperar quando já me sentir tão longe, de justificar os meus tropeços e permitir que todas as minhas metades se encontrem no fim.

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