Mulamba e a P.U.T.A

Uma música forte, uma mensagem simples de ser entendida, e um desenho de uma realidade cruel. A música P.U.T.A do grupo Mulamba viralizou nas redes no mês de novembro, com todo o mérito. A canção trata sobre o abuso sexual contra mulheres, os discursos machistas e a ira de mulheres fortes, que com toda a sua alma expõe no decorrer da canção os medos e ódios daquelas meninas que só querem viver em paz. O Regra dos Terços conversou sobre o grupo, as composições, feminismo e machismo com as compositoras e cantoras Amanda Pacífico e Cacau de Sá. Abaixo segue o clipe, na sequencia a entrevista:

Regra dos Terços – Segundo os dados oficiais a cada 11 minutos uma mulher foi violentada no ano de 2014, totalizando 47.646 casos. Mas esses são apenas os casos onde as mulheres tiveram condições de denunciar, todos nós sabemos que essa realidade é muito pior. Como vocês encaram essa realidade?
Amanda Pacífico – Com tristeza, mas ao mesmo tempo, é aí que lembramos da importância de levantarmos essa bandeira na nossa música. De fazer chegar no ouvido dessas mulheres que se sentem sem força de denunciar ou de sair de um relacionamento abusivo, e encorajá-las a seguir a diante, firmes e donas de si.
Cacau – Com a tristeza dum igual que se pergunta o motivo de tanto ódio? Mesmo com medo não me nego o direito de ser, viver e transparecer toda essa indignação no som e na vida

R – Vocês são fortes na expressão e nos gestos. Acredito que todo ser humano tem essa força dentro de si, algumas pessoas por não terem tido os meios para desenvolver esse lado acabam se mostrando mais frágil e é nessa hora que os algozes se aproximam e dominam a situação. Vocês acreditam que ao exporem as suas forças por meio da arte, vocês dão a essas pessoas as ferramentas necessárias para se perceberem senhoras de si?
A – Acho que essa nossa força vem exatamente da nossa inquietação de querer transformar o que a gente enxerga. A gente se sente na obrigação de chegar pra essas mulheres de maneira incisiva mesmo, tentando, à partir do nosso exemplo, resgatar de dentro delas essa força que também existe e nos alimenta.
C – Acredito que “os meios” da força que trago é pra ser força em quem precisa. Assim como me valho da força dos outros. Acredito que quando qualquer pessoa acredita no que tenho me leva a acreditar… Sendo assim é mais da soma dos eus outros é que me tomo senhora de mim.
R – De que maneira a cultura machista coopera para que os números de mulheres violentadas continue tão alto?
A – Coopera quando lidamos com isso com naturalidade. Quando não repreendemos um hábito machista de um homem ou da própria mulher, e até reproduzimos o hábito ou a frase, por estar enraizado no nosso cotidiano. Esse auto policiamento precisa ser diário, digo isso pra mim também! Todos nós já nos pegamos fomentando o machismo involuntariamente. Uma piada reproduzida, uma cantada.
A nossa música “Mulamba” nasceu disso também. De uns caras que, no nosso show, “chegaram” repetidas vezes em mulheres na balada sem o consentimento delas.
C – De muitas maneiras, “Desde olha filhão que tia gostosa, quando tu crescer..” ou “filha, olha a louça, não saia pra rua é perigoso!” Um machista perto de outro falando de tudo o que se poderia fazer com a secundarista que passa e sua sainha, pra mim colabora pra que o cenário continue assim.

R – Como vocês encaram o feminismo nos dias atuais?
A – Fico muito feliz de poder viver essa organização de nós mulheres. Nunca se falou tanto em feminismo como nos dias atuais, de maneira elucidativa, por pessoas que jamais teriam acesso ao tema. A nossa música vem pra somar nesse momento e queremos um dia não precisar explicar o óbvio.
C – Acho que tem coisas maravilhosas e coisas ruins e como toda e qualquer forma de grupo tende ao extremismo as vezes, o que não é muito saudável em qualquer linha de raciocínio. Meu ponto de vista.

R – O clipe de P.U.T.A viralizou na rede. Vocês acreditam que conseguiram expressar nesse trabalho o grito entalado no peito das mulheres brasileiras?
A – Temos certeza. Foram 500 mil visualizações…. Mulheres de vários cantos do país nos mandando mensagens, relatando alguma história de assédio, nos agradecendo pela representatividade ou contando da emoção de se identificar com o que a música narra. Queremos que a P.U.T.A e a Mulamba (nossa outra música, que também tem esse papel do empoderamento) cheguem a mais mulheres a cada dia.
C – SIM, mas ainda não é o suficiente. Um grito pra séculos de dor! Eu quero mais… Chegar mais longe e falar com a realidade de mulheres reais assim como nós.

R – O que se passou na mente de vocês quando se depararam com o sucesso desse trabalho
A – É muito louco ver a repercussão e o feedback de tanta gente. Todo dia a gente se emociona, quando recebemos em troca tanta coisa bonita. Sensação de dever cumprido como artista e de sentir a utilidade e a urgência da nossa fala.
C – Até hoje me pergunto isso. Mas a certeza de ter dado minimamente o recado tá ai. Nas discussões e fomentadores em torno do assunto. Tua procura só te faz fomentador desse trabalho junto com a gente, por exemplo.

R – Como foi o processo de composição da canção? O que inspirou vocês?
A – Ano passado eu li um post no Facebook de uma amiga, relatando o medo de descer do ônibus na rua escura ao voltar da faculdade e quando via que uma mulher descia junto, se sentia mais segura. Eu notei que esse medo era de toda mulher, inclusive meu. Aquilo martelou na minha cabeça por um tempo, até saírem os primeiros versos. Mostrei pra Cacau e a gente sentiu na hora que estávamos falando de algo muito sério e delicado. Sentamos na sala e em umas duas horas nasceu a P.U.T.A.
C – Natural. Não sei bem dizer, mas quando estamos todas juntas as coisas começam a acontecer naturalmente… Entre Amanda e eu, no processo de pensar uma canção ou mesmo quando vem em conjunto… Se faz natural.

R – Algo mudou depois do lançamento?
A – Muito! A nossa voz reverberou muito mais. Muitas pessoas nos param pra dizer que se sentiram representadas, que precisávamos desse recado no mundo. Muitos caras também, entenderam o recado, vão aos shows e cantam junto. Somos gratas também ao Haistudio, que nos presenteou com o vídeo.
C – Se algo mudou? Sim, descobrimos que somos bem mais que seis. Descobrimos que somos todas as mulheres que nos trombam pra falar sobre o cansaço que é ser a “fêmea” desses machos tantos. Somos todas as outras que por qualquer motivo não falam ou ignoram nosso trabalho.
R – Como surgiu o grupo Mulamba e qual é o objetivo da banda daqui em diante?
A – A Naira (baixista) e eu nos conhecemos na nossa outra banda, a Orquestra Friorenta. Daí tivemos a ideia de fazer um especial Cássia Eller, só com mulheres. As meninas já tocavam juntas em outras bandas, a Farrapos e a Hounds. Esse especial foi em dezembro de 2015, de lá pra cá foram alguns especiais da Cássia e de outras mulheres, como Elza, Rita Lee, Marisa, Gal. E o autoral veio chegando naturalmente desse encontro que acabou dando certo.
Agora a gente tá em fase de finalização do EP, que lançaremos em março e continuaremos o nosso caminhar.
C – Surgiu como um presente pra Cassia Eller, um som em tributo no dia do aniversário dela e uma coisa foi puxando outra… Vimos o quanto nos somamos juntas e ai estamos. E o que queremos daqui pra frente, continuar tocando e passando a mensagem que tiver que levar
R – Qual é o recado que vocês deixam para as mulheres brasileiras?
A – Que o medo não te vença. Se permitam ser visíveis e livres, como boas P.U.T.A.S que somos!
C – O recado que eu deixo é : mulher saia de casa, vá ver sol e lembrar que as flores tem caules capazes de virar troncos fortes. Não estás ficando empoderada , nasceste poderosa!!! O ventre que pesa o feto tá em ti. Ensina teu guri e tua guria a serem iguais.

Além de Amanda e Cacau, o grupo também é formado por Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Baixo) e Nat Fragoso (Guitarra).

Curtiu? Então não esqueça demonstrar isso seguindo a página da banda no Facebook. Mas se você além de curtir, virou fã, saiba que nesse sábado (10/12) elas se apresentarão em Curitiba, confira os detalhes e confirme sua presença aqui.

Quer ver sua banda divulgada aqui? Nos encaminhe o material para regradostercos@gmail.com.

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