“E os namoradinhos?”

namoradinhos

“E o namorado?” “Tá namorando?” “Vai casar quando?” “Filhos? Quando a gente vai ter um bebezinho para brincar?” Numa roda com cerca de 15 pessoas em um almoço de domingo com uma parte da família que eu não vejo e nem falo com frequência, nenhuma, NENHUMA, me perguntou como estava meu trabalho, se eu ia começar mesmo uma nova faculdade, o que aprendi depois de um ano fora de casa e morando sozinha. Ninguém, NINGUÉM, me perguntou se eu quero construir uma casa nova, se eu quero viajar para fora do país ou se eu estou guardando dinheiro para conseguir investir em um negócio próprio ou se é só pra comprar calcinha da Vitoria Secret’s mesmo. Ninguém se ofereceu para dividir comigo as cargas da vida, aqueles papos gostosos sobre refletir a existência humana. Porque eu não devo ter nada de mais interessante, útil e inteligente, ao não ser o simples protocolo: Nascer, crescer, casar e ter filhos.

Isso veio logo depois de uma semana ótima que passei na cidade da outra parte da família- Ponta Grossa, interior do Paraná- onde todos, absolutamente TODOS, estavam empolgados de saberem que eu estava conseguindo montar um escritório novo e que ficaria mais fácil de nos vermos. Todos me perguntaram o que de novo eu havia conhecido, sobre as coisas novas que aprendi e quais meus objetivos futuros. Alguns tios me deram dicas de como trocar meu carro sem perder muito dinheiro, me ensinaram sobre cervejas artesanais, investimentos de poupança e as primas me deram dicas para me manter saudável espiritualmente e fisicamente. A gente fala de roupa, sapato, episódio da novela e os lançamentos do cinema. Trocamos telefone para nos desejar boas coisas durante a semana e, claro, falamos de amor. Mas falamos de um amor tão mais amplo e tão mais importante, do que o simples fato de “ter alguém” pra preencher lugar. Entende o paradoxo? O mal não é das famílias em geral, é de um determinado círculo que se fecha e determina que sucesso na vida é o simples ato de ter alguém ao lado, não importa como, quando e os motivos. E isso, meus caros, é o que devemos aniquilar das gerações futuras. Essa é a nossa missão! Mostrar que nós, jovens, temos muito mais para oferecer do que as cobranças clichês de final de ano.

Nada contra quem ama essa regra, rotina e aderiu ao cronograma como opção de vida e se realiza com o fato de querer casar e ter família e ser tudo o que os pais sonharam- inclusive, parabéns! Vocês merecem todas as alegrias do mundo. Nada contra, você que está lendo agora, não concordar com o que eu tenho para dizer- eu te desejo muitas conquistas nessa estrada. Mas, por favor, tente ver além do superficial e nos entenda: Uma mulher, jovem e bonita, pode ter muito mais do que um namorado para comentar. Mais do que uma vida sentimental e planos que envolvam fraldas e casa na praia. Talvez, você já parou para pensar que o seu sobrinho tem algo mais interessante do que somente a faculdade- assunto batido em todo almoço e jantar- para contar? Que a sua prima, aquela que começou agora a vida profissional, não tenha umas novidades bacanas sobre o mercado de trabalho? Investimentos da bolsa? Aquela pessoa da sua família, que sempre está viajando, já pensou em perguntar o que de novo andou conhecendo e qual lugar seria o ideal para passar as próximas férias? Tem tanto assunto nessa vida, minha gente! Entre a uva passa da ceia de Natal e o fricassê da tia Rosana, cabe sim, um papo sobre a situação atual do país e o jogo do Mengão. Dá para perguntar para uma mulher, mesmo jovem, se ela acha que daqui para frente as religiões irão se unir ou a geração Bolsomito é mesmo acéfala e precisa de tratamento. Dá para divulgar a coluna da prima/sobrinha/neta que anda tentando lançar um livro bacana e se realizar como escritora, enquanto você envia vídeo motivacional pelo WhatsApp (fica a dica gente!). Dá para ter tanto assunto interessante, além da data do noivado- que noivado? Eu só quero umas “brusinha”, tia… Dá para não enfiar o dedo na cara de ninguém cobrando coisas que nem você oferece. Dá para fazer a piada do “pavê ou pacumê”, sem problemas, ainda mais se isso substituir o comentário do “puxa, mas você é estéril mesmo?” Nossa, mas você engordou, né?”.

Dá, inclusive, para elogiar a gente e dizer com sinceridade: Espero que você seja muito feliz! Dar, ao invés de uns presentes bem embrulhados, abraços que acolham e juntem nossos cacos e nos restaurem. Sabe, a gente anda precisando abraçar mais as pessoas- fica mais uma dica. Olha, isso aí é melhor do que peru quentinho na mesa com aquela farofinha esperta de amêndoas. Vai por mim.

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