Eu tô aí

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Abro os olhos de manhã, ainda sonolenta e vejo o embrulho na cômoda me encarando. Com fita dourada, numa caixinha vermelha, habita o pequeno Mp3 que eu comprei antes do natal para que você levasse contigo para uma viagem programada. Não consegui entregar, não foi na bagagem de mão e nunca serão ouvidas as músicas que eu separei cuidadosamente durante cerca de um mês, para que quando desse saudades de casa, você tivesse algo físico para se lembrar que sempre haverá lugar para você- aqui, em mim. Na parte traseira do Mp3 tem um “x” pintado com caneta permanente, uma piada interna para que você abrisse um sorriso tímido quando visse. Eu tinha programado tudo, iríamos jantar num restaurante que eu conheço há um tempo, pediríamos um vinho da cartela deles que é ótimo e daí, com meu melhor sorriso de ansiedade, eu daria para você a caixinha enquanto você iria se desculpar por não ter comprado nada para mim. Mas você foi, sem aviso, sem prévia e sem dizer quando volta- se volta. Eu fiquei aqui, com a primeira ferida verdadeira que você me causou, curando isso ao olhar o presentinho quieto, brilhante, esperando algum destino e me culpando por, em partes, ter te ajudado a ir sem aviso, sem prévia e sem dizer quando volta- se volta.

As suas mudanças de humor sempre me geraram certa confusão, mas nunca me afetaram de verdade, contudo, alguns detalhes acabam se quebrando porque você não sabe receber sutilezas da vida e me encaram em manhãs sonolentas. Pulei as sete ondas, deixei um passado tão turbulento para trás e agradeci tanta coisa bacana que vivi, sabe de tudo isso, ouviu e participou de grande parte dessa fase e eu nunca te deixei, assim, como quem não se importa com o coração alheio. Sabe o que é? Você eu decidi carregar como amuleto da sorte que a vida deu. Desejo saúde, penso em você. Desejo amor, amo você. Desejo paz, seu colo. Então, espero que quando quando você olhe o vinho abrindo, a taça enchendo e o sabor na sua língua te dando prazer, saiba que eu tô aí. Quando a sua blusa que já foi meu pijama, meu abraço e meu ninho de ansiedades, te aquece, sou eu. Tô no seu café da manhã- mais café do que leite. Na sua visão embaçada que finge que eu não estou nas linhas do seu pensamento, na beirada do seu sorriso, na sua vontade da madrugada- sim, sou eu. Sem aviso, sem prévia e sem dizer quando eu volto- se eu volto.

Eu tô numa ambiguidade, feito dois rios onde navegam a vontade de querer passar o resto da vida ao seu lado e a necessidade de ter que tomar as rédeas da própria vida, porque somos livres demais até mesmo para amar. Eu fiquei encarando um Mp3 que me parece meio idiota agora, esperando que quando sua pele tocar o mesmo vento que me toca, algo ainda esteja intacto em você e eu consiga me sentir em casa. Talvez, você não saiba e não veja, mas é difícil não amar profundamente alguém que nos gera tanta bagagem. Se eu tiver que me mudar de você, demorarei anos para conseguir levar tudo o que é meu, sem deixar ao menos 20% no vão dos seus dedos. Eu sinto falta daquela sua mania de me querer nos teus braços até pegar no sono e eu ficar quietinha, respirando baixo para que você não acorde. Sinto falta, até mesmo das suas reclamações, tá fazendo falta, eu juro. Essa sou eu colocando armaduras no chão e dizendo que sinto falta até da falta que você faz nos dias de semana. Tô sentindo falta da sua voz me dizendo que tem que ir embora e eu ali, feito menina mimada, pedindo mais dez minutos.

Por isso, seja lá onde você esteja deitando sua cabeça agora, lembra daquela mania engraçada que eu tenho de te chamar enquanto eu durmo- ou choro. Eu ando catando palavras para maquiar a vontade que eu tenho de gritar em algum canto do mundo que eu queria você aqui. Volta, que eu quero te bagunçar mais vezes. A vontade absurda que eu estou de sentar com você e te ouvir detalhar para mim a vida que tem se mostrado em cores diversas, as novidades, cicatrizes novas, isso tudo aí anda me sufocando de saudade. Sabe, ninguém consegue falar da existência vazia do mundo, da solidão faminta que nos devora quando paramos cinco minutos para analisar a avidez das ausências. Volta. Que talvez, a sua volta amenize essa sensação de tolice que me encara nas manhãs sonolentas, embrulhada com fita dourada e que me lembra de todas as vezes que eu deveria ter avisado, dado prévias e dito de uma vez por todas que eu sempre voltarei pra você, por escolha.

Volta que eu faço o café. O resto, a gente desembrulha com o tempo.

 

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