Regra Entrevista | Helouise Prado e o filme A Culpa é Minha?

Cena do documentário "A Culpa É Minha?"
Cena do documentário “A Culpa é Minha?”

No Brasil uma mulher é estuprada a cada três horas. Nesse número estão inclusos apenas os casos onde foi efetuada a denúncia através do telefone 180, do Governo Federal. Das 103 milhões de mulheres que vivem no nosso país, uma a cada cinco considera já ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem, segundo os dados da Fundação Perseu Abramo de 2010.

Que roupa você estava usando? Onde você ia tão tarde assim? Isso é hora de mulher andar sozinha na rua? Você estava bêbada? Muitas mulheres encontram essas perguntas quando vão buscar por socorro após serem violentadas sexualmente, o que acaba gerando diversos outros traumas que podem destruir a sua maneira de se ver e se encaixar em sociedade. Fruto de uma cultura machista, esse tema precisa ser debatido e suas reais raízes e consequências precisam ser expostas.

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Recentemente publicamos aqui no Regra uma entrevista exclusiva com o grupo Mulamba falando exatamente sobre o abuso sexual contra mulheres. Mas não é só na música que encontramos materiais que denunciam essa realidade cruel. A jornalista Helouise Prado lançou no final do ano passado o documentário A Culpa é Minha?, que mostra essa realidade pelo prisma das vitimas. O que acontece quando uma mulher é violentada? Quais são os problemas que a acompanham? Como a sociedade passa a enxergar essa vitima? Esses são apenas alguns dos tópicos abordados nesse material.

Helouise passou a se sentir ligada pelo tema a partir do momento em que identificou ao seu redor diversas mulheres que já viveram esse mesmo problema. Não tendo como agir judicialmente diante das circunstâncias – por saber do medo que as vitimas tinham de seus agressores – a jornalista passou a se aprofundar nos estudos do feminismo, e entrou para um grupo de apoio a vitimas. Foi aí que ela descobriu que o problema era muito maior do que se podia imaginar. “O problema da violência doméstica não se baseia só na agressão física, mas que ela afeta o psicológico e que deixa traumas quase que irreparáveis” afirma Helouise.  Foi diante dos números que a jornalista sentiu “a obrigação de contribuir de alguma forma, foi aí que surgiu a ideia de fazer um documentário baseado na história vivida por elas, até para que essas mulheres pudessem se sentir mais humanas a ponto de enxergar uma luz no fim do túnel”, afirma.

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Helouise conversou com nossa equipe sobre o documentário, acompanhe a entrevista completa abaixo, na sequencia o filme.

Regra dos Terços – De onde vem a sua ligação com o tema?
Helouise Prado – Vi que muitas mulheres próximas a mim viviam o problema dentro de casa, mas que ao mesmo tempo eu não conseguia ajudar essas mulheres judicialmente, até porque, sabendo o histórico delas e o medo em que elas viveram – e que umas ainda vivem – não haveria uma denuncia formal tão cedo por parte delas. Eu comecei a estudar o feminismo, depois entrei em um grupo de apoio a vítimas de relacionamentos abusivos e lá me vi perplexa com a quantidade de relatos chocantes. Vi que o problema da violência doméstica não se baseia só na agressão física, mas que ela afeta o psicológico e que deixa traumas quase que irreparáveis. Me senti na obrigação de contribuir de alguma forma, foi aí que surgiu a ideia de fazer um documentário baseado na história vivida por elas, até para que essas mulheres pudessem se sentir mais humanas a ponto de enxergar uma luz no fim do túnel.

RT – Você acredita que toda mulher sofre ou sofreu algum tipo de abuso? Como isso se dá?
HP – Sim, eu acredito. O abuso começa desde quando ainda somos crianças e incentivadas, por exemplo, a acreditar que o beliscão vindo do coleguinha é um ato de amor, onde escutamos a frase: “mas filha, ele fez isso porque gosta de você”. Quem nunca ouviu uma dessas, não é mesmo?
Eu creio que toda a mulher já sofreu ao menos uma passada de mão no bumbum, por exemplo, dentro do coletivo. Infelizmente, a cultura machista ainda está enraizada não somente na criação dos homens, mas na das mulheres também, porque ao longo da pesquisa presenciei muitas mulheres se diminuindo, questionando os próprios abusos que passaram e culpando umas as outras. Isso tudo só vai mudar quando nós, enquanto sociedade, mudarmos a nossa postura ao educar novas crianças, exemplo que uma das entrevistadas também fala no filme. São nas pequenas atitudes em casa, como a divisão de tarefas sem separar por gênero, por exemplo.

RT – Como foi todo o processo para a produção do documentário?
HP – Consegui as entrevistadas com mulheres da frente feminista, que me ajudaram muito em indicações e, algumas delas até me convidaram a conhecer melhor os espaços delas e tudo mais. Elas foram muito acolhedoras.
A dificuldade que encontrei foi em conseguir quem falasse. O processo é complicado para quem já deu muitas entrevistas, porque muitos jornalistas ainda possuem pouco conhecimento sobre o movimento e acabam transmitindo uma mensagem suja e preconceituosa para quem assiste, além de que, muitas das vezes culpabilizam as vítimas de forma indireta em reportagens, o que desmotiva muito algumas delas a voltarem a se expor.
Na prática, foi conturbado, pois eu comecei focando apenas nos depoimentos das meninas e, até então, ficaria apenas nas experiências de vida e superação delas, o que pra mim, estava tudo indo bem. No processo de edição descobrimos um problema muito maior, porque todas as entrevistadas apontavam a culpa como ponte divisória entre elas e a busca por ajuda e senti que isso não podia passar batido.
A partir daí, mudamos todo o roteiro, o foco e até o nome do documentário. Editamos em pouquíssimos dias, mas foi uma loucura! Conclui minha pesquisa com base em dados que consegui com a SESP e fomos traçando a linha condutora em base nestes dados, sempre incluindo a delegada para dar a voz da credibilidade nestas estatísticas.
Usei o trecho informal da Ludmila como forma de condução porque, além dela falar muito bem sobre tudo que envolvia meu tema, ela é super expressiva. Coisa de atriz mesmo. Onde ela falava, eu via a possibilidade de encaixar todo o restante, sentimos a necessidade de deixar ela contar e dar a linha a sequência das outras meninas.

RT – Qual é sua expectativa com ele?
HP – Eu espero poder alcançar através do documentário essas mulheres que ainda estão em situação de risco. Estou divulgando nas páginas dos amigos, vou exibir na Cinemateca de Curitiba e divulgar muito para que lote a sala (risos). Além de poder levar em DVD nas ONGS que acolhem mulheres da periferia.

RT – Quais são os próximos trabalhos que você tem em mente?
HP – Vou dar sequência, criando uma série web documental baseada nas pautas feministas, com cerca de cinco ou mais episódios, cada um abordando uma questão dentro do movimento. Depois também quero fazer outros filmes com temas sobre a margem da pobreza em Curitiba, por exemplo, ou com pessoas aleatórias na XV para saber suas histórias, bem coisa de Eduardo Coutinho.


Quem quiser entrar em contato com a Helouise é só mandar um e-mail para jornalismohelouise@gmail.com.

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