Regra Resenha | Índice Médio de Felicidade, de David Machado

Índice Médio de Felicidade - capa | Créditos: Rafaela Manicka
Índice Médio de Felicidade – capa | Créditos: Rafaela Manicka

Começo este texto dizendo que, se eu não tivesse ido a um bate-papo na Escola de Escrita com o autor deste livro, talvez eu nunca conheceria esta primorosa obra. Talvez o termo talvez seja muito pesado, mas acredito que seja por aí mesmo. Inclusive, a história do livro é tão maravilhosa e aconchegante que, antes mesmo de lê-la, eu já havia feito um texto aqui pro Regra sobre o seu assunto principal. Sem mais delongas, estou falando de Índice Médio de Felicidade, obra mais recente do português David Machado, publicado aqui no Brasil pela Editora Dublinense.

Antes de explicar resumidamente a história, gostaria de enfatizar o quão gostosa é a leitura da obra. De início, um pouco confusa pelo fato da editora ter escolhido deixar os termos portugueses no meio do texto, confesso. Porém, conforme a história vai se desdobrando, você nem percebe mais que está lendo gajo ou puto ao invés de garoto. E isso é um dos tantos pontos interessantes que a obra traz, pois é explícito, ali, que o português de Portugal é bem diferente do português do Brasil – mas isso a gente meio que já sabia, certo?

Índice Médio de Felicidade conta a história de Daniel, um homem na faixa de seus 30 anos, casado, pai de dois filhos e desempregado. Por conta da forte crise econômica que assola o seu país, Daniel se vê em uma realidade que jamais tinha imaginado – ou, melhor, planejado, já que, em certo momento, descobrimos que ele possui um Plano para toda a sua vida (sim, com P maiúsculo mesmo, já que o Plano é um cadernão onde ele escreve basicamente como toda a sua vida deve ser). Mesmo diante da situação em que se encontra (a mulher com os filhos do outro lado do país, um amigo, Xavier, enclausurado dentro de casa há mais de 12 anos e o outro, Almodôvar, preso há vários meses por conta de um assalto que a crise o fez cometer), ele permanece otimista sobre a vida. Inclusive, antes dessa onda de azar o assolar, ele, junto dos dois amigos, cria um site onde o principal objetivo é fazer com que as pessoas tenham uma plataforma a fim de se ajudarem.

– Lá fora, as pessoas ainda são como antes?
– As pessoas são sempre as pessoas, respondi-lhe.
– Ainda há pessoas que precisam de ajuda?
– Toda a gente precisa de ajuda.
– Porque é que não pedem?
– Não sei. Se calhar, não conhecem o site.

Um ponto bacana para enfatizar aqui é o fato dos personagens serem muito parecidos com as pessoas da vida real. Exemplo clássico é quando nos questionamos sobre como será o futuro de nossas crianças diante de tal situação aterrorizante que estamos vivendo. Para isso, exemplifico rapidamente com as três existentes no livro:

  1. Vasco: filho de Almodôvar que, sem o pai, se vê perdido na imensidão que é a vida e acaba tendo contato com pessoas erradas e indo para um caminho totalmente contrário do que dizem ser o correto.
  2. Flor: filha de Daniel, se refugia da realidade em meio às palavras, sejam elas em jornais ou livros de ficção.
  3. Mateus: também filho de Daniel e, como sua irmã, se refugia da realidade em jogos eletrônicos, ao invés de palavras.

O livro todo é baseado, praticamente, no tal do índice médio de felicidade, que de fato existe e é usado para classificar os países conforme a média de felicidade de seus habitantes. Quem nos apresenta isso é o Xavier e, desde o momento em que o termo aparece, a história toda se volta a ele. De início, os índices dos personagens eram meio pessimistas – segundo a visão de Daniel, o otimista (e talvez o único) -, mas, conforme a leitura, esse índice se eleva a partir de um plot sensacional que o autor nos presenteia já no fim da história.

Índice Médio de Felicidade é, como eu disse lá no início, uma obra primorosa e que deve o seu devido reconhecimento. Primeiro porque retrata a realidade humana de uma maneira natural e sincera e, segundo, porque ela nos traz diversos ensinamentos sobre como a vida deve ser encarada – até mesmo diante dos momentos difíceis e que parecem não ter fim.

Eu pensei: somos invencíveis. Desde que continuemos a acreditar, somos invencíveis e coisas incríveis podem acontecer. E de repente senti electricidade no meu sangue e a cabeça cheia de palavras, todas as palavras. O silêncio daquele dia sumiu-se na torrente de pensamentos. Era tão absurdo, Almodôvar, por causa de um momento tão fortuito havia tanta força no meu corpo.

quote-david-machado
Índice Médio de Felicidade – página 316 | Créditos: Rafaela Manicka

Em uma escala de 5 estrelas, David Machado conseguiu facilmente as 5 com essa história. Recomendo – e muito – a leitura! 🙂

Sobre o autor:

David Machado - divulgação | Créditos: Mar Babo
David Machado – divulgação | Créditos: Mar Babo

David Machado nasceu em Lisboa, em 1978. Publicou os romances O fabuloso teatro do gigante, Deixem falar as pedras e Índice Médio de felicidade (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Salerno Libro d’Europa), que, em breve, será adaptado ao cinema. Publicou, além disso, vários contos para crianças. Os seus livros estão publicados em mais de uma dezena de línguas.

Advertisements

One comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s