De dentro para fora

oceano

Não me conte nada. Nada além do que eu possa ver e tocar e, talvez, sentir o gosto. Não precisa, eu não preciso e você não tem que desafiar tanto assim seus bons costumes de se preservar e se manter tão dono das suas verdades e escolhas. Não mude os planos, não troque a rota, mas tenta me encaixar nisso tudo. Eu tento também. Enquanto te interessar as minhas longas histórias de como o passado e a sorte me fizeram chegar até aqui, eu terei todo o prazer do mundo em lhe contar e divagar sobre. Porque a vida é o que temos para contar, afinal.

Inclusive, sonhei conosco num cenário bem improvável. Meus pés tocavam a areia do mar, litoral perto daqui, fazia frio- do jeito que amamos- e falávamos do vazio existencial que acontece quando a vida começa a ficar complexa demais. Falamos sobre a guerra, a paz, sobre a política nacional e o desenvolvimento mundial, porque sim, porque faz parte de nós tudo isso também. Eu olhava a gola da sua jaqueta e você me contava sobre o filme que eu indiquei e você ficou transtornado por dias, porque eu só gosto de filmes que questionam quem somos e o que seremos. Os motivos de eu sempre questionar tudo, você novamente me falava que era saudável e eu ficava em dúvida. Então, eu acordei sentindo um bocado de frio em plenos 28ºC de janeiro. Quis voltar ao sonho, nada. Nada. O cheiro salgado, a maresia que deixa meus cabelos pesados, ficou tudo ali na memória me dando vontade de te colocar no carro e ir lá nas pedras do mirante, ver o mar frio quebrar na beirada dos cascalhos e a gente, não contando nada, dizer tudo. Eu sei que agora as temperaturas ao nosso redor se diferem e a vida é tão absurda e tão faminta, que não nos dá tempo de pedir perdão aos erros que cometemos e tampouco nos perdoar e nos tornar mais dignos de nos olhar diante do espelho. Eu sei. Sei que a verdade oculta sobre quem você é e o que você aparenta, que eu consigo ler nos teus silêncios, é o tipo de incômodo que você não está acostumado. Sei que a sua verdade é, entre um deslize e outro, pesada demais para se encarar, mas eu aguento. Eu me propus enfrentar isso também. Mas, se eu puder pedir algo para levar ao túmulo e me orgulhar de contar aos anjos, por favor, faça parte do meu presente, nem precisa contar nada. Sim. Vem com seu semblante interessado e cheio de novidades, faz do meu presente um passado digno de ser lembrado diversas vezes, por horas, e me redime de sentir tanto, o tempo todo. Aceite com bravura a violência com a qual eu me entrego e me faço inteiramente clara, mas fecha os olhos quando eu perder o viés do discurso, citar os autores que ninguém lê e as músicas que você não ouve.

Fuma um cigarro, toma mais uma taça. As solidões todas, as euforias e os cacos que vamos tendo que catar no caminho, não precisam ser contados. Saberemos. Camada após camada, vamos morrendo um pouco para nos reconstruir, como países gélidos invadidos pela guerra. Confiemos na companhia do outro, para que o outro não se sinta coadjuvante de história alguma. Eu nadei um oceano inteiro de erros para encontrar em você, que também vive se sentindo sem lar. Eu já morei em tantos abraços errados, tantos olhos que não me viram de verdade, cê sabe. Cê também já esteve por aí, vagante. Agora, quase duas da manhã, enquanto eu sei que a sua respiração já está pesada e a possibilidade da sua insônia atacar é remota, eu só queria dizer que depois de tanto tempo olhando no fundo da sua íris e vendo o mundo através dela, eu só queria que você soubesse que eu não tenho mais medo da lucidez. Porque é ela quem me devolve todos os dias para você. É como se eu tivesse dormido por anos e a sua verdade tivesse me acordado de uma maneira tão voraz, que eu não consigo mais me vestir novamente. Eu já devo ter usado todas as minhas melhores palavras em tantos discursos e cartas e tentativas de te mostrar todas as coisas mais cruas e raras que eu andei conhecendo por aí, que agora, nesse instante, eu só consigo respirar acelerado, pontuar mecanicamente minhas frases e te dizer que eu sei que todos nós estamos indo, o tempo todo, para milhares de lugares remotos no mundo. Mas enquanto eu estiver aqui, ao seu lado- seja onde e como for- sentindo sua respiração e sabendo sobre o seu dia, enquanto você esticar a mão e conseguir me tocar, enquanto você ainda souber onde me encontrar, saiba que esse sempre será o melhor momento da minha vida.

E sobre isso, nunca será necessário contar nada.

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