As minas no topo é uma afronta

Comecei a ouvir Rap lá por 2002. Racionais, Estilo Cachorro, foi a música que me iniciou nesse universo. Pra mim a cultura do Ritmo e Poesia era isso: levada envolvente, rimas, homens armados e com roupa larga cantando um monte de coisa que minha mãe não ia gostar de me ver repetindo. Na minha cabeça de garotinho de 9 anos rap era coisa de homem, de preto favelado, de gente que queria matar a polícia e era adorado pelas menininhas. Eu demorei muito pra entender que podia existir muito além daquilo.

A primeira mulher que eu ouvi rimando foi a Cris, do S.N.J.. E foi incrível: além de um verso totalmente diferente daquilo que eu escutava, foi a parte da música que precisei ouvir apenas duas ou três vezes para decorar e sair cantando. Depois de “Pensamentos”, tudo o que eu pensava sobre o Rap mudou. Comecei a enxergar através do sangue nas letras, inclusive nas dos Racionais.

cris-banner-home
Cris S.N.J.

De lá pra cá, comecei a acompanhar outras mulheres MC’s. Nas rodas de improviso, nos grupos, na internet. Porém, nunca parei pra refletir sobre como mesmo com uma enxurrada de boas letras e de lançamentos, pouquíssimas foram as mulheres que despontaram na cena.

Foi quando me questionei sobre isso que ecoou na minha mente a virada de beat da primeira música que ouvi, com “Estilo cachorro, não é machismo”.

Se o rap é a casa das minorias e a voz das classes que precisam delas, qual o motivo dessa falta de espaço e de valorização da minas? Se a ideia do “machismo opressor” é tão mimimi como vemos estampados nas postagens espalhadas pela internet em textos gigantescos dos comentaristas, qual seria então o real motivo que faz com que esses trabalhos não sejam vistos? Se realmente a gente não está sendo influenciado por essas razões, e mesmo assim não conseguimos enxergar a importância das mulheres para o movimento, só posso acreditar na Tia Lívia Cruz e afirmar que ”as mina no topo é uma afronta”.

Sempre que algo se destaca e incomoda quem está no topo, é natural que exista o desconforto, e é isso que está acontecendo na cena do Rap. Embora a gente (amantes da cultura) tenha acreditado durante muito tempo que todas as bandeiras estavam sendo levantadas, estamos tendo de engolir o choro e ver as mulheres roubarem a cena de assalto. Cada dia mais empoderadas e com rimas cada vez mais ácidas, diversas mc’s estão dando uma grande aula de respeito, e mostrando como o Rap tem muito para evoluir para chegar ao status de “máximo respeito”.

Abaixo algumas das minas que fazem parte da minha playlist. Tem aí um som pra indicar? Coloca aí nos comentários.

Lívia Cruz – Ordem na Classe

Stefanie Roberta – Mulher MC

Flora Matos – Canta Pra chamar

Drik Barbosa – Sem clichê

Karol Conka – É o poder

Clara Lima – Realmente

Paz!

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s