Eu, católico, aprendi a amar Iemanjá

“2 de Fevereiro, dia da Rainha

Que pra uns é branca, pra nóiz é pretinha”

(Emicida – Baiana)

Embora na minha árvore genealógica não exista uma grande representatividade de religiões espiritualistas e de matriz africana, esse tema nunca me foi estranho ou dado como tabu. Vez ou outra até ouvia em conversas com conhecidos que alguém havia ido a um terreiro, que esteve com alguém que era kardecista ou coisa do tipo. Por diversas vezes fui convidado a conhecer essas religiões e, por incentivo da minha mãe, sempre fui ensinado a seguir meu coração e a respeitar, acima de tudo, todas as manifestações de fé.

Mas foi somente no ano passado que pela primeira vez estive em uma casa de Umbanda. Tempos depois, conheci o Candomblé. E foi nessa última religião que conheci Iemanjá, a rainha do mar, o que me ensinou muito sobre fé. Isso aconteceu do outro lado de Curitiba, lá no Campo do Santana, onde conheci o Ilê Asé Awon Omin Baba, uma casa dedicada ao culto do Candomblé.

Cores, batuques, guias no pescoço, roupas brancas e impecáveis – tudo o que provavelmente você está acostumado a ver retratado em diversas fotos e vídeos. Cantigas em yorubá – a língua africana utilizada nos cultos – dão ritmo às danças e marcam cada momento da celebração. O Babalorixá (pai de santo) lança um olhar para os garotos posicionados atrás do atabaque e recebe como resposta uma cantiga. Lá vem ela: Iemanjá.

Ela entra com sua linda roupa e um pequeno espelho nas mãos. Sua face transmite uma paz enorme e sua dança é majestosa como um balé. Os passos são guiados por outra integrante da gira que, com calma e simpatia, vai ditando pequenas ações para a mãezinha. Poucos minutos se passaram e eu já estava com lágrimas nos olhos.

Pode não fazer muito sentido pra você mas, a cada volta na sala que acontecia era como se uma parte de mim se derretesse. “Iemanjá é a mãe de todos. Nossa rainha” foi o que falou uma senhora sentada perto de mim. Com um sorriso meio bobo no rosto me vi pensando naquelas doces palavras e contemplando a dança. A sensação cria tantas coisas em nossa cabeça, e coloca mil pulgas atrás da nossa orelha, que quando presenciamos um milagre não conseguimos nem entender o que está acontecendo.

O milagre, no caso, era uma atualização da minha fé! Durante o tempo em que o orixá ficou na sala, eu pude sentir uma energia que falava diretamente comigo, sem sequer abrir a boca. Pude ser capaz de resgatar aquele sentimento de criança de que independente do que você vê ou o que te falam, o importante é o que você sente. Não teve gritos, não teve vela acendendo sozinha, não teve brisa batendo porta e nem um monte de outras coisas que eu li relatadas por aí a fora. O meu encontro com Iemanjá foi ali, olhando pra ela dançando e sentindo seu abraço de mãe.

De lá pra cá existiram outros encontros, tanto com ela quanto com outros, mas em nenhum momento isso me fez deixar de amar a religião que eu escolhi pra mim! Muito pelo contrário: apenas me instigou a estar mais e mais em contato comigo mesmo, exatamente como faz uma mãe quando te pega no colo e ensina a acreditar que você pode fazer o que quiser, basta acreditar em você e manter seu pensamento nas palavras dela.

Eruya!

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