Quem ama não tem dúvidas. Será?

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O amor tem sido cada dia mais difícil de se definir, diga-se de passagem. Um dia, disseram que tem o jeito certo de se amar, fizeram uma maldita tabela de “certo e errado”, achando que todo mundo se encaixa nisso e acabaram com metade das possibilidades de amar de maneira saudável. Talvez seja esse o problema da humanidade: A necessidade compulsiva de rotular. E com isso veio a teoria de que quem ama, não tem dúvidas. Mas olha, deixa eu te contar: Quem ama duvida, sim! Duvida, porque ama. Duvida e muito. Porque não quer magoar o outro, porque não quer se magoar (de novo) e porque sabe que para amar direito, é preciso entender os tempos do coração. Tem gente que se ama, mas não está na hora de ficar juntos, formar família, ter um cachorrinho e dois gatos. Tem gente que se ama, mas é imaturo demais pra lidar com tanto sentimento. Tem gente que se ama, mas não entendeu como vestir a camisa do amor. Tem gente que se ama, mas prefere ficar quietinho, nós dois e um vinho- sem rótulos, status e clichés. Tem dúvidas sim, tem inseguranças, desafios pessoais que quase ninguém conhece. Será que sou correspondido? Será que estou fazendo a coisa certa? Será que eu amo mesmo? Porque amor e paixão são costumeiramente confundidos e acabam gerando relações doentes, cansativas e codependentes e não questionar isso, nos deixa vulneráveis ao erro cruel de concluir que era apenas paixão. Nove, entre cada 10 casais que vivem relações danificadas, poderiam resolver tudo com algumas perguntas. Veja bem, eu disse “danificadas”, não erradas.

Nove, desses 10 casais, não conversam durante as refeições, não conversam antes de dormir, não conversam simplesmente porque não sabem como fazê-lo e dormem brigados. Nove, desses 10 casais, se acostumou a falar diariamente dos defeitos do outro e não consegue mais enxergar as qualidades que os fizeram chegar ali, nem mesmo uma sequer. Nove,  desses 10 casais, está em suas relações “porque agora não tem mais volta”. Nove, desses 10 casais, não lembra mais quando foi o momento em que os celulares desligaram e a vida se resumiu naquele momento sublime, só nós dois e um vinho. Nove, desses 10 casais, evita questionar a relação, porque algum idiota no universo disse que isso significa falta de amor. E daí, cheio de problemas rondando a cabeça, a gente cai na dúvida, será que eu ainda amo? Mas por medo da resposta, decide fingir que tem certeza e vai enfiando mentira atrás de mentira, comprimidos, vícios, distanciamentos, síndromes… Até que não aguenta mais, acaba com tudo, porque simplesmente não teve coragem de perguntar.

Quando nos alteramos demais por causa de uma relação, é comum que nossa identidade se torne um reflexo difícil de ser reconhecido e é aí que eu digo: Eis o momento de se questionar. Um tempo longe, não significa que você não quer mais que o outro faça parte da sua vida, só significa que você decidiu que é hora de respirar e reavaliar, descobrir o melhor caminho. Ninguém é obrigado a ser feliz, radiante, bem sucedido e ter uma pele macia com Monange o tempo todo. A questão, é que queremos isso o tempo todo e não é assim que as coisas acontecem. A geração mimada, que cresceu vendo os filmes da Disney, não entende direito como a vida real funciona e acha que o feliz para sempre é essa coisa de arco-íris e sem hálito ruim de manhã. As pessoas erram, magoam e se frustram cotidianamente. A Disney não conta que Cinderela teve prisão de ventre depois da festa do casamento por causa do canapé e descobriu que o príncipe teria calvice aos 50 anos. Ninguém avisa você que relacionamentos vão além da alegria utópica dos filmes e que felicidade tem mais a ver com a quantidade de defeitos que você consegue superar, do que a quantidade de qualidades que irão te fazer se apaixonar.Tem boleto pra pagar, toalha molhada sobre a cama e cansaço depois de um longo dia de trabalho. Tem TPM, encanamento do banheiro que estourou e a vontade de ir passar as férias no Chile, mas as parcelas do cartão de crédito não deixam. A gente só consegue se reerguer depois que cai e responder depois que pergunta. Ninguém aprende se a ordem não for essa.

Relações humanas são, nada mais, nada menos, do que RELAÇÕES HUMANAS. Falíveis, frágeis e complexas. Então, se é preciso questionar 205 vezes ao dia se isso vale à pena ou não: Faça. Olhe no olho do outro, abra o jogo, cartas na mesa, nudez de alma. Não é possível amar completamente o que não se conhece completamente, sendo assim, permita que o outro te conheça profundamente e que o mesmo possa ser (re)conhecido. Deixe as dúvidas sentarem com vocês na mesa do jantar, sanem cada uma delas e tenham consciência dos riscos que perguntas carregam consigo. Não tenha medo de colocar um ponto de interrogação no final da frase. O melhor relacionamento que existe, é aquele em que ambos sabem que dentro de suas imperfeições, ainda somos as respostas exatas para as dúvidas da vida do outro. E esse tipo de coisa, rede social nenhuma conseguiria responder por nós. Nem mesmo seus pais. Nem mesmo seu analista. Tem coisa, que só o amor consegue questionar e que só ele consegue responder. Ainda bem.

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