É hora de partir

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Eu estou saindo, tudo bem? Dando o fora, desistindo, jogando a toalha. Chame como você quiser. Eu só preciso sair daqui, dessa situação e de você. Conosco não vai ter a pergunta clássica do “quer pão” enquanto eu vou colocando uma mochila nas costas, fingindo que volto no final do dia ou da semana ou nunca mais. Não vai ter o famoso aviso de que o leite acabou no café da manhã e nem a desculpa do cigarro para encobrir que eu coloquei minhas coisas no carro, não volto. Então, finge que você já sabia que eu iria e, por favor, não force um gesto de surpresa. Sair de você é mais simples do que ir embora de algum lugar físico e concreto, como uma casa. Mas ao mesmo tempo é tão mais doloroso. É só me silenciar e você não vai perceber, não vai sentir falta, a pior parte de ir embora de você é saber que não fará diferença. E foi exatamente por isso que eu precisei partir.

Você vai achar que eu volto daqui a pouco, uns dois ou três dias são bons pra eu sentir sua falta, mas não, não dessa vez. Eu abri os olhos, como se alguém tivesse me acordado de um sono profundo e percebi que não existem mais maneiras de te explicar que eu precisava de um gesto, apenas um, para entender que era bom eu permanecer com os olhos brilhantes ao te ver. Cansei, de sempre ser a responsável pela procura. Cansei, de ficar só e com pena dos meus ossos, depois das doses, enquanto todos ao meu redor já estão embriagados de vazios. Cansei, de ser eu a ficar esperando você sair de algum lugar da minha mente e se concretizar, no meio da multidão, sorrindo e me levando para casa porque já é tarde e você também cansou de me esperar. Cansei, do lado da cama gelado. Da saudade do seu peito calmo que me serviu de travesseiro. Cansei, de não conseguir mais ouvir sua respiração ao dormir. De te pedir pra me levar com você. Eu bato na porta, você não abre. Eu grito seu nome, cê se mete nos silêncios que me sufocam. Então, não precisa se trancar mais ainda, porque eu posso não voltar, mas quem sabe um dia você decida sair em minha busca? Quem sabe um dia, você decide abrir os olhos e enxergar que a vida não é feita de solidões, tampouco indecisões? Eu posso já ter cruzado a esquina, atravessado uma ponte, mas olha, a gente pode se encontrar nesse mundo, quando você estiver pronto. Quando eu já não tiver mais tanta mágoa na bagagem. Mas cuidado, o tempo não costuma ser tolerante com determinadas cegueiras.

Confesso, levo comigo um bocado de esperança de que você não permita que eu cruze as fronteiras e nem a soleira da porta. Eu decidi ir embora de uma vez por todas, porque quem vai em partes não consegue deixar rastros de paz. Ainda que dentro de mim, tenha uma voz baixinha que fala “me pede pra ficar, dá tempo ainda, pede logo…” , eu só sinto o teu silêncio abrindo feridas, eu sangro. Diz que errou, fala que tá cheio de coisas na agenda, me olha. Mostra que você consegue me ver, inteira, crua e clara, como a minha pele que não costuma tomar sol. Por favor, diz que o meu café é suficiente para você voltar vez ou outra para os meus braços, me mostra que meio torto, meio azedo, é nosso jeito mesmo e funciona. Me conserta feito fios de tomada, me coloca alinhada e me religa. Me dá a mão, me abraça. Me pede pra permanecer, só mais uma chance. Diz que quer, eu quero também. O tempo tá passando, teus verbos já não me conjugam mais. Suas mãos estão ficando cada vez mais platônicas. Meu porto não te deixa atracar ansiedades e sua boca não me rouba mais nenhuma emoção. Eu tô saindo cada vez mais rápido, eu sou um avião decolando, eu sou o ônibus que saiu da plataforma, eu corro mais rápido do que um trem, uma célula morrendo diante dos teus olhos. Cê tá me deixando sumir, virar poeira, discurso não dito, poeta esquecido.

Não consegue sentir meu silêncio tocar a sua pele?

Meu coração parando de bater?

Eu estou saindo, tudo bem?

… (silêncio)

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