Antes de morrer

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“Eu nuca gostei muito das músicas que ele ouvia”. Esse foi o primeiro pensamento que me veio em mente quando, parado e com as mãos no bolso de uma calça social cinza, ele olhava uma vitrine de eletrônicos na calçada. Eu estava atrasada para voltar ao escritório, tinha ido até lá só por causa da agência do banco que fica na avenida e costuma não lotar tanto, mas ele me acalmou essa ansiedade.Talvez fosse a camisa branca que sempre ficava bem com seu tom de pele bronzeado, a barba que mesmo bem feita, era marcada, eu queria fazer carinho em seu cabelo farto. Ele estava ali, suspeitei eu, por causa do restaurante libanês que parece uma venda de muamba, mas tem um kebab incrível e ele sempre dizia que um dia iria comprar aquele lugar. Travei na no momento em que o vi, consegui sentir o cheiro do pós-barba, mas acho que essa parte foi ilusão. Senti o toque da mão dele no meu rosto, quando ele acariciou a própria nuca, num gesto involuntário e só dele. Ele ainda faz isso, pensei.

Decidi seguir em passos firmes até meu carro e devagar, ele me viu chegar mais perto. Seus olhos encontraram os meus e quando as sobrancelhas subiram um pouco, me senti vista- por inteiro. Num calor de 30 graus e meio insegura se o vestido que eu tinha escolhido era propício para encontrar um ex que não via há uns 3 anos (ou 3 vidas, o tempo sempre foi tão relativo), eu acho que ele sabia que eu não estava tão pronta assim para ser vista por seus olhos claros, cheios de curiosidades sobre tudo. Seus passos ao meu encontro esmagavam os pedidos de perdão que fizemos, as saudades que eu nem me lembrava mais que sentia e o cheiro do pós-barba só me lembrava do quanto a vida mudou até estarmos ali, no meio da rua, indo ao encontro um do outro.

Não sorria, pensei. Ele sorriu e meu estômago podia ser sentido na ponta dos dedos.

-Que honra!– disse me abraçando.

-Oi… E aí?– a minha voz parecia ter saído mais alta do que eu imaginava.

-Cê tá trabalhando por aqui?

-Não, só vim ao banco. Aqui não tem muita fila no almoço.

-Eu vim pelo libanês, fazia um tempo que eu não comia lá.

-Aquele que kebab é ótimo.

-É.

O silêncio foi o elefante que nos esmagou de primeira, sem piedade. Quanto passado, quanta coisa a gente deixou morrer por medo de encarar de frente. Naquele instante eu pensei nas forças que eu achei que não teria se um dia o visse. Estava em pé, já era um lucro. Perguntei da mãe, disse que andava bem de saúde e seu irmão teve mais um filho. “Já são três, acredita?”  Sorri com sinceridade, lembrei dos planos de “não-filhos” que fizemos, dos projetos de viajarmos para a Colômbia pouco antes do nosso fim. Aí então, lembrei do nosso fim, da dor inicial, do momento em que acordei certa manhã e percebi que nada mais dele estava nas minhas gavetas e, dali pra frente, na minha vida. Que ciclo bonito fechamos e que vida bonita vivemos- ainda que dolorosa a partida- que honra, já diria ele, concluí por fim.

Me senti honrada por todas as tardes de inverno que partilhamos cobertores e livros, por cada gesto de carinho que percorreu meu rosto, meu corpo e me amadureceu. Fui grata por detestar as músicas que ele ouvia, mas elas terem me rendido bons assuntos em rodas de conversa. Agradeci silenciosamente por ter aprendido tanto e, mesmo depois da dor lacerante, ainda conseguir ser grata por vários detalhes que ficaram em mim, que talvez eu tenha deixado também. Lembrei da marca do pós-barba e da sua dificuldade de levantar de manhã, tomar o café e me deixar no trabalho antes de ir para o seu escritório. Quanto tempo faz? Quanto tempo fez? O assunto durou menos de dez minutos, numa calçada quente que parecia um universo paralelo, intocável. Nos despedimos, ele me abraçou novamente. “Você consegue ficar cada dia mais linda, sabia?” Sorri e fui seguindo meu caminho, mas havia uma verdade que eu precisava dizer antes de morrer um dia. Gritei, já meio longe:

-Strokes, eu nunca gostei de Strokes. Mas eu ouvia porque você costuma fechar os olhos quando ouve “You only live once” e eu gostava de te ver daquele jeito.

-Você mentiu para mim aquele tempo todo?– ele disse enquanto se virava lentamente com as mãos no bolso e fazia uma cara de espanto.

-Desculpe. Eu não queria parecer ignorante e precisava te confessar isso antes da morte.

-Bem, eu nunca mais vim ao libanês, desde aquela última vez. Morrer escondendo isso me parece tão ruim quanto.

Em silêncio, acenei e fui embora. Foi uma honra.

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