A geração que não atira o pau no gato

Abro a caixa de leite integral e recebo logo os olhares de condenação das pessoas ao meu redor. Quem, em pleno século XXI, toma essa quantidade de gordura e lactose, sem a menor culpa? Entre substituições de ingredientes cancerígenos por óleos de árvores que ninguém nunca ouviu falar até a revolução alimentícia dos últimos cinco anos, eu vou me perguntando, o que será de nós no futuro. Rita Lobo, referência em culinária tradicional, nos dá esperança:  “Medicalizar a alimentação é distúrbio. Coma comida, não nutrientes. Coma variado e os nutrientes estão garantidos. Exclua ultraprocessados”. Aplaudo e recebo logo os olhares de condenação ao meu redor, mais uma vez. As pessoas estão perdendo o prazer do simples, do cotidiano, dos alimentos e hábitos tradicionais e retrocede de maneira cega e rápida. Os novos padrões, que juram sair do padrão, estão acabando com a vida de jovens que querem seguir suas musas fitness e os maravilhosos corpos sarados que foram conquistados de maneira totalmente natural- foco, força e fé, unidos ao NO PAIN, NO GAIN e que todo mundo sabe não ser tãããão natural assim.

Minha avó, aos 79 anos, come torresmo e toma cerveja sem o menor pingo de culpa e tem uma das peles mais invejáveis que você verá. Meus melhores amigos, sabem que não deveriam consumir a quantidade de sódio que consumimos em uma simples roda de conversa, mas saem todos com a paz interior de termos desfrutado mais um bom momento. Meu melhor amigo, faz uma dieta maravilhosa de segunda à sexta e cai de boca nos carbos da vida, volta na segunda como se nada tivesse acontecido e tá mega feliz com os quilos eliminados. Entretanto, tem um grupo de pessoas que aderiu a essa vida politicamente correta e permitiu que o ato de comer virasse sinônimo de perigo e culpa. Começo a desconfiar de gente que resumiu a vida em colheres de lichia. Não estou condenando, veja bem, eu aderi também. Minha nutricionista indicou doses de aveia na alimentação e depois que comecei a comer salada feito gente grande, senti uma mudança drástica. Dois litros d’água são o mínimo que venho bebendo, chego aos 4 com facilidade em dias mais quentes. Faço exercícios físicos três vezes por semana e ainda consigo jogar um vôlei com o pessoal, por prazer. Isso pode não ser o ideal de vida que andam pregando por aí, visto que como carne vermelha e me entupo de bacon com cerveja aos finais de semana, sem medo. O politicamente correto saiu do menu, foi para os vocabulários, invadiu as cantigas de roda, está enfiando o dedo na sua cara te chamando de tudo e mais um pouco e se você se sentir ofendido, oprimido ou qualquer coisa assim, é porque a porcaria dos seus pais te ensinou tudo errado. Vê se não dá uma vontade lascada de voltar para o útero?

Não estou também dizendo que sou satisfeita com o mundo do jeito que é, preconceituoso e desonesto, esse cara babaca que te obriga a seguir um padrão que nunca encaixou em vida alguma e que te olha dizendo que você está magra demais, gorda demais, calvo demais, barbudo demais, barrigudo demais, homem que chora é viado demais e que fulana pediu para ser estuprada. Não mesmo! Mas também me sinto de saco cheio com os fiscais de panela, com os senhores donos da razão da defesa universal da fauna e flora, que só sabem ficar fazendo protesto via seus celulares de última geração. Que não fazem ideia do quão grave é um bebê com menos de dois anos, saber baixar um aplicativo, mas não conseguir pedir “por favor” dentro de casa. Ando cansada demais, de gente que enfia um iPad na mão de uma criança de 3 anos e vem me dizer para não comer arroz branco e não cantar músicas antigas de ninar, porque elas pregam tortura animal ao atirar o pau no gato. Jovens que não conseguem conversar com seus pais sobre assuntos importantes como sexualidade, carreira e drogas, porque os pais estão ocupados demais com suas carreiras promissoras e suas opiniões imutáveis sobre o mundo. Não se pisa mais na terra, tampouco se toma banho de chuva. Eu, com 25 anos nas costas, nunca vi uma estrela cadente porque não aderi ao bom costume de olhar o céu de noite- não me orgulho em nada disso e prometi que meu filho verá no mínimo umas vinte estrelas caindo na vida.

Que a humanidade precisa de melhorias, isso é fato irrefutável. Mas não consigo ver melhoria alguma na digitalização das relações e nas condenações silenciosas com alguns pecados inocentes, como fumar um cigarro para controlar a ansiedade de não conseguir corresponder expectativas. Se fulano adora sua costela de domingo e beltrano viu na alimentação vegana uma maneira mais feliz de cuidar de si, eu aplaudo os dois. Felicidade é questão de ser, se suas ações correspondem com as suas essências, siga. Apenas. Não vire aquela pessoa que acha que suas alergias e neuroses devem atingir as vidas alheias e que sua felicidade é, automaticamente, a felicidade do outro. Nossas verdades são apenas nossas, aprender isso me tirou milhares de frustrações cotidianas. Eduque seus filhos como achar melhor, mas permita que ao menos uma vez ele coma a sobremesa antes do almoço- por favor. Sol demais causa câncer, sol de menos carência de vitamina D e para todas as outras coisas na vida, sempre a mesma resposta: Equilíbrio. Nas ações e nos julgamentos, sejamos minimamente sensatos para entender que cada um carrega em si suas realidades e tempos, não obrigue o outro a te agradar. Até porque, o que podemos esperar dessa geração low carbo que não atira o pau no gato? Sinto preguiça só de pensar.

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