Série Mulheres Árabes | #1 Niloofar Rahmani

rahmani

*Nota (01/03/17): Após uma conversa com Mariana Haddad, notei um descuido neste artigo. Embora seja um país muçulmano, o Afeganistão não é um país árabe. Portanto, o termo mais adequado para se referir à Niloofar Rahmani seria “mulher oriental”, e não “mulher árabe”.

Niloofar Rahmani, de 25 anos, cresceu em Kabul, capital do Afeganistão. Ela se alistou para um programa de treinamento da força aérea em 2010, mas manteve segredo de seus parentes que acreditam que uma mulher não pertence ao “mundo fora de casa”. Dois anos depois, ela se tornou a primeira mulher pilota de asa fixa na história do Afeganistão e primeira pilota mulher do país, desde a queda do regime talibã.

Rahmani e outras nove mulheres inspiradoras de todo o mundo foram premiadas, pelos Estados Unidos, com o International Women of Courage Award 2015.

Muitas meninas no Afeganistão têm sonhos, mas há uma série de problemas e ameaças no caminho.

Acredita-se que havia pilotas afegãs durante o período comunista pré-talibã, mas os detalhes são escassos. Quase 14 anos após o governo talibã ter sido derrubado em uma invasão liderada pelos Estados Unidos, as mulheres afegãs têm rumado com mais força e voz em busca de uma sociedade mais igualitária. Isso marca uma mudança radical na luta pelos direitos das mulheres, mas as atitudes conservadoras ainda prevalecem.

Em 2013, após fortes ameaças supostamente do Talibã, Rahmani teve que deixar o país por dois meses. Ela afirmou que coisas simples, como andar nas ruas e ir às compras não eram mais possíveis e que sentia como se toda sua liberdade tivesse ido embora.

Em entrevista à AFP, Rahmani relembrou um episódio em que ela desafiou as ordens de um superior, que a impediu de realizar o transporte aéreo de soldados feridos em uma província rebelde no sul do país. As mulheres são tradicionalmente proibidas de transportar mortos ou feridos no Afeganistão, pois “muitos acreditam que as mulheres têm um coração pequeno e que são muito emocionais”, disse Rahmani. Ao completar a tarefa, Rahmani disse ao seu comandante que a punisse se ele achasse que ela havia feito alguma coisa errada. Ele sorriu e a parabenizou.

Ela tinha apenas 18 anos quando ouviu a notícia que a Força Aérea Afegã queria recrutar pilotos e imediatamente se inscreveu. Enquanto impulsiona mudanças, Rahmani também tem que lidar e ser cautelosa para não desrespeitar as normas culturais em um país conhecido por seu sexismo.

Em um episódio, quando um colega homem da base aérea estendeu a mão para cumprimentá-la, ela recusou. Ele a questionou e ela sorriu educadamente, dizendo posteriormente em entrevista que não queria passar a mensagem errada. No Afeganistão, até mesmo um simples gesto, como um aperto de mão entre homens e mulheres, às vezes pode ser interpretado como um sinal de mau caráter.

Rahmani é uma das três mulheres afegãs que foram treinadas para se tornarem pilotas desde a invasão de 2001 e a única, desde então, a entrar na força aérea. Quando questionada sobre quanto tempo levaria para que a Força Aérea tivesse um número igual de homens e mulheres pilotos, ela respondeu:

Não tão cedo. Talvez 20 ou 30 anos. Mas eu tenho esperança.

Capitã Niloofar Rahmani perto do Rio Arkansas, após se graduar no programa de treinamento de voo na base da força aérea de Little Rock. (Foto: Andrea Morales, The New York Times)

Em dezembro de 2016, a Capitã Niloofar Rahmani voltou às capas dos jornais. Preocupada com a sua segurança e seus familiares após uma série de ameças de morte, ela pediu asilo nos Estados Unidos, onde vinha treinando pelos últimos 15 meses, em bases aéreas no Arkansas, Flórida e Texas.

As autoridades militares do Afeganistão pediram que os Estados Unidos rejeitassem seu pedido de asilo, alegando que sua “vida não está em risco de maneira alguma”. Rahmani disse que seus colegas afegãos na força aérea a trataram com desprezo e que ela se sentiu em risco.

O general Mohammad Radmanish, porta-voz do Ministério da Defesa, contestou suas alegações de estar em perigo:

“Tenho certeza de que ela mentiu dizendo que ela foi ameaçada, apenas para ganhar o caso de asilo. É sem fundamento ela alegar que sua vida estava em risco ao servir na Força Aérea Afegã.”

Rahmani afirma que a Força Aérea Afegã deixou de pagar seu salário pouco depois do início do programa de treinamento americano. Essa situação, aliada à eleição do presidente Donald Trump, que trouxe uma ordem executiva suspendendo a entrada de refugiados nos Estados Unidos, deixa as coisas ainda mais sombrias.

Que a trajetória de Rahmani fale mais alto do que as vozes tentando silenciá-la.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

Advertisements

3 comments

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s