Sejamos mais trouxas, por favor

trouxa

Olha lá, mandando mensagem, mais uma vez. Agora, fica aí esperando a resposta que não vem e talvez venha só amanhã, na próxima semana, quando o outro decidir que você é útil para suprir alguma carência. Vai lá, fica olhando no calendário, no relógio, na agenda, se hoje você terá um tempinho para jantar e, quem sabe, falar de coisas banais que esquentam o coração. Olha lá, o besta dando valor, perguntando como foi seu dia, como você passou a semana, dizendo que sente saudades, pedindo para você voltar logo da sua viagem, mandando presente no seu trabalho, flores no meio do dia e o outro não dando um pingo de importância. Olha lá, inocente, levando bolo no encontro de sexta a noite. Mas é trouxa mesmo- eles dizem. Pare de ser ridículo (a), comece a se valorizar, pare de se abrir dessa maneira. Enfia esse amor goela abaixo e morra sufocado, mas jamais, em hipótese alguma, dê todo seu amor assim, de bandeja.

Fui ouvindo as justificativas de uma amiga, num bar de quinta categoria, que eu comecei a lembrar dos conselhos que geralmente nos dão. Enquanto dose atrás de dose, ela dizia: “Eu tento não demonstrar tanto, mas eu não consigo! Eu deveria parar de ser trouxa, de mandar tanta mensagem, de me preocupar!” E cada lágrima que escorria por seu rosto, eu lamentava por ele. Trouxa não era ela, que estava com o coração na mesa, pronto para se afogar em mais uma garrafa de Whisky. Trouxa não era ela, que queria dar o seu melhor para alguém, que sentia tanta coisa bonita por ele e não tinha ressalvas na hora de se doar. Que não era adepta do joguinho, do charminho, das mentirinhas para afastar o outro sem deixá-lo ir realmente. Trouxa não é quem assume que quer ficar junto, dividir o cobertor, que não fica mantendo o povo na geladeira. Não, o errado disso tudo não estava sentado conosco naquele bar.

O trouxa estava rodeado de gente que não tá nem aí se ele anda se cuidando e levando um casaco no carro. O trouxa dava valor em quem não enxergava sua existência direito, em quem o tratava igual ele tratava a mulher que chorava do outro lado da cidade por ele. O trouxa estava mostrando para os amigos, como aquela linda mulher estava rendida, exposta, na mão. Cantando uma vitória de um jogo que ele só estava perdendo. O trouxa achava que fazer ela esperar por dias, deixá-la se sentir inferior e colocar em sua cabeça que ela não era suficiente, a faria ficar para sempre. O trouxa estava cego de ego e falsa razão. O trouxa nem sabia o quão sozinho há de ficar um dia. Ela, seguia de queixo erguido e joelhos frágeis. Qualquer tropeço, ela estaria ali, aos pés do homem amado. Era fácil mesmo, era disponível mesmo, trocava tudo por cinco minutos de amor indecente. Porque quando se gosta, quando se está lá para o outro com tudo, não tem essa de ficar fazendo tipo, manha, se constrói pontes e não muralhas. Ela sequer precisava dele, já que pagava a própria cerveja para comemorações e destilados pra quando o coração andava manco das pernas.

O amor, quando banalizado assim, vai se perdendo nos dedos, vira ressaca de meio de semana. Quem sofre, quem é colocado em segundo plano, pode até insistir por um tempo. Mas as pessoas despertam e esse despertar é tão definitivo, que voltar atrás não é uma opção. Eu sei que naquela noite, suas dores todas iriam boiar em uma piscina de incertezas e, talvez, na manhã seguinte ela iria voltar com suas práticas de carinho, como se nada tivesse acontecido. O choro, a dor no peito, se aguenta, não tem problema. Quando o amor vem, a gente se restaura- ou quase- para conseguir levar essa bomba toda. A gente insiste mais um tempo, talvez anos. Trouxas não são os que estão segurando as flores, são os que não as vêem e não as cultivam. Minha amiga estava com toda a disposição de dar seus tesouros para o trouxa que não liga, que não responde e que não faz questão de se fazer presente, de dar colo nos dias mais difíceis.

Pedimos a conta quando marcavam quatro da manhã no botequim. Os garçons viam seu sofrimento pendurado em meu ombro, depois de muita lágrima que escorreu por ali. Dava para sanear uma vila inteira com aquele pranto todo. Ao entrar no táxi, o motorista me perguntou se a menina que seguiria dormindo no banco de trás tinha algum problema.

-Não moço. Quem tem problema é o cara que ela gosta. 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s