Último aviso

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Há algum tempo, você não sabe, mas eu tomo café perto da sua casa. Já pensei em parar o carro mais perto do seu portão, mas daí eu achei que seria muita loucura- não que algumas quadras já não sejam. Só que pelo menos tomar café ali perto, me dá uma permissão silenciosa de não parecer tão louca ao conversar sozinha, como se você pudesse me ouvir aí, nessa bolha intransponível. Eu saio do escritório e sento no mesmo lugar, a atendente já me conhece e eu fico ali um tempo, respirando fundo e tentando achar o seu cheiro em algum vento que sopre diferente. Mas é só café. Sempre que eu penso em você, em como nós chegamos até aqui, eu imagino uma história que começou ao contrário. Consegue entender? É como se o meu avesso tivesse sido mostrado de primeira e as qualidades só tivessem aparecido depois e você só conseguiu me notar exatamente porque eu não queria ser notada. Teus olhos sempre foram tanto para mim, eu sequer consigo expressar o tamanho disso.

Daí, cá estou nesse ponto, onde eu tomo café perto da sua casa e não tenho coragem de te pedir colo e começo a me perguntar: Como foi que viemos parar aqui? A vida não senta do outro lado da mesa, não pede um café para ter o que saborear enquanto me conta onde os seus olhos têm descansado silêncios e eu continuo sem conseguir discar seu número. Desculpe, seus olhos de novo. Não repetirei. Eu não consigo te tocar ao esticar a mão. Tudo o que eu tenho é uma lembrança dos teus dedos entrelaçando os meus, enquanto eu dirijo e depois tudo some. O que eu tenho é um abraço que veio tão pontualmente no meio de uma solidão que já passou. Lembro que nunca gostamos do verão, que teus olhos têm outra estação. Os olhos, mais uma vez. Um final de semana com a televisão desligada, tão longe dessa realidade que nos separa e desse calor que nos sufoca e daí eu já estou no meio dos meus papéis do trabalho. Eu tenho você me olhando na cama, falando sobre uma beleza que eu nunca concordei e aquela minha insegurança de dormir e você sumir do meu lado em algum momento. Agora, nesse instante, eu sinto como se tivesse mesmo adormecido e você saiu sem deixar um bilhete- sinto que estou ficando louca. Meu bem, você está aí? Eu jurei que não te amaria. Ninguém consegue me trazer tanta euforia e sossego ao mesmo tempo, ninguém me rega com tantas sutilezas há muito tempo, eu já perdi a conta dos anos nesse meio tempo e sequer consigo te chamar de amor.

É aí que as minhas vertigens te trazem, volta e meia, enquanto o sono não vem. Eu sinto que já te dei todas as minhas palavras, todo o meu corpo, toda a minha fome e a minha sede, mas nada disso te detém aqui e nem te fez esticar a mão para me tocar também. Teus olhos não me fitaram nessa semana que passou e eu queria ter me jogado da primeira ponte que eu visse. Desculpe, falei dos olhos de novo. Mas eu ando tão cansada de ser essa coisa quebrada, incerta e ambulante, que quando você me coloca em um local de paz, eu já não quero mais sair dali. É que eu eu ando tão cansada de fingir para você que tudo bem a sua vida não estar entrelaçada na minha, que eu esqueço de dizer para você me segurar quando eu disser que tô indo embora. Porque eu quero, ok? Eu sinto vontades diárias de te contar sobre as coisas mais insignificantes, porque tudo com você faz sentido e eu gosto disso. Eu consigo sentir a minha pele todas as vezes que você respira. Sendo assim, por favor, tenta ouvir esse meu pecado particular que é te pedir para deitar aqui, me contar a sua história. As folhas nas árvores ainda não secaram, você não está do outro lado da linha, será mesmo que você vai deixar todo esse amor esperando até o outono? Chega de falar de mim, de me expor, de assumir o que eu sinto. Não existe mais nada para ser dito, afinal. Eu estou dando a chance de que você me dê a sua verdade, a sua versão dos fatos, a sua visão dos atos. Dando a chance que a sua vida não seja cercada de pessoas que te façam sentir um estrangeiro eterno das próprias certezas. Me encontra num meio de caminho, não me deixa desistir de você. De você, não. Se for pra começar ao contrário, algo me diz que tudo termina bem. Por enquanto, um café, um coração e o outro lado da mesa te esperam- e claro, uma parte da minha da vida também.

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