Transmissão de futebol – parte I: o rádio do Chevette

Após bela tabela da dupla AtleTiba, ao estilo Romário e Edmundo nos tempos de Vasco da Gama, brigados mas jogando em prol de um objetivo comum, saiu um gol de placa. As torcidas vibraram e a nova era da comunicação está em comemoração até agora . O jogo estava passando de graça pra quem quisesse ver via Facebook e Youtube  pelas páginas dos times no dia 1º de março,  dessa vez sem interferência de redes televisivas na compra dos direitos de imagem do clássico.

Finalmente apareceu uma resistência, que daqui pra frente pode ser classificada como “ameaça” ao monopólio de transmissões de jogos de futebol pela TV. A ideia de transmissão de jogos pelo Youtube tende a ficar em alta devido a este momento, os anunciantes já estão habilitados para mandar aquele “Oi sumido” no whatsapp da direção dos clubes.

Esta tendência de quebra de paradigma na transmissão nos próximos anos me faz lembrar as fases de transmissão que acompanhei no decorrer dos anos, desde que comecei a me interessar pelo esporte. A primeira parte eu conto hoje.

Jogos na TV eram só  às quartas e sábados, ou sábado e domingo ou quarta e domingo na rede Globo. Na rede Bandeirantes, ainda passava em outros dias jogos de alguns campeonatos menos populares. Pay per view não era pop nos anos 90, era coisa de “patrão”.

Nessa época, ou você via jogos dos 4 grandes do eixo Rio-São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo) ou não via jogo algum na TV.

Era apenas um jogo passando na TV. Naquela época não tinha “bolinha” no canto da tela e nem escolha de qual jogo quer ver. Era esse anunciado na propaganda e ponto final. Com isso, a Rede Bandeirantes lançou compactos dos jogos que passavam logo após o horário das partidas –  geralmente confrontos dos times do Eixo Rio-São Paulo.

Isso me faz lembrar um vizinho, que pedia encarecidamente para que ninguém falasse os resultados para ele, pois ele iria assistir o compacto do jogo do seu clube, sem spoilers. Um belo dia, por um lapso, seu filho falou o resultado do jogo, e o controle remoto quase foi parar na cabeça do garoto.

Para saber jogos do time trio de ferro da capital paranaense, só indo aos estádios, ou recorrendo ao radinho. Em compactos, só se enfrentasse algum time dos citados acima.

“Afinal, quem se importa com times de outros estados, não é mesmo?” 

As transmissões de rádio foram muito importantes nessa época. Lembro que eu pedia para o meu pai para ouvir o jogo em alguma rádio AM no carro (nessa época passava jogos em poucas rádios FM, quase nenhuma). A bateria do chevette não arriou e a minha imaginação era cada vez mais abastecida a cada lance narrado.

som radio

O lado bom era que você ouvia, fechava os olhos e deixava a sua imaginação fazer o resto. O locutor falava que foi um chute de fora da área, no ângulo direito e você imaginava como foi, como a rede balançou, como o jogador comemorou,  assim como imagina uma descrição de  uma passagem em uma história de livro. Era um teste pra ver se a imaginação convergia com os gols filmados pelas câmeras, depois ao ver na TV.

Às vezes me sentia enganado, assistindo ao lance nem parecia tão emocionante assim. Aí é que entra o lado ruim por ver os gols do Fantástico ou no dia seguinte. A imaginação era melhor, o gol era mais bonito na minha cabeça, o lance era mais perigoso à meta do outro clube do que o take de melhores momentos do programa de esportes. Mas a ansiedade era tanta, meus olhos precisavam ver o que a lente viu.

Só tenho a agradecer ao meu pai, por me emprestar o carro pra ouvir jogo, e a cobertura das rádios. Talvez ao ver os lances, os olhos dos narradores de rádio brilhassem mais do que os de TV. Eles precisavam colocar este brilho na voz, para que este reflexo atingisse em cheio a nossa imaginação e os nossos corações.

Aguardem a parte II.

 

 

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5 comments

  1. Já escutei algumas partidas em um aparelho SAN Francisco desses. Tanto com meu vô em seu opala como com meu pai em seu gol. No opala do meu vô tinha um chiado característico no fundo que acompanhava a intensidade de uso do acelerador do carro kkk

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  2. Parabéns pelo texto Carlos adorei…lembra quando montávamos a seleção paranenaense nos fins dos anos 90…no papel…sempre três times…algumas divergências mas normalmente não gostávamos do Milton do ó na seleção apesar de paranista…e quase apanhamos uma vez pq ele fez um gol em um paratiba e tiramos sarro dos coxas

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