O ofício de artista é uma ilusão.

O Oficio de Artista é uma ilusão.

O que realmente representa um trabalho na nossa sociedade é a troca de alguma tarefa – intelectual ou braçal – por dinheiro. Existem artistas que conseguem transformar seu trabalho em dinheiro. No entanto, a igreja católica devia canonizá-los como santos pós-modernos, pois a tarefa sempre se configura num verdadeiro milagre.

Exercer e usufruir dos benefícios do exercício da performance musical, cênica, coreográfica, de artes visuais, enfim qualquer coisa que seja arte, para o senso comum é coisa que:

a) os filhos das pessoas fazem na escola;
b) as pessoas fazem, depois do trabalho;
c) as pessoas fazem por alguma vocação, até mesmo de natureza espiritual, de maneira indulgente e voluntária, quase um transbordamento de bondade;
d) são feitas por pessoas que são, de alguma maneira perigosas. vagabundos, maconheiros e estigmatizados em geral.

A aventura em cima do muro. Explosão de verdades coridais.

Claro, todas estas visões são ótimas (exceto a última) mas pra que um ofício de artista venha a existir as pessoas precisam executá-lo produzindo riqueza. E em nenhuma destas visões eu consigo imaginar alguém produzindo riqueza. Sem uma possibilidade real de se monetizar o ofício de artista é uma miragem que anda iludindo muitos andarilhos do deserto que anda sendo a cultura neste primeiro século do terceiro milênio.

Falo estas coisas a respeito da minha cidade, que conta com mais de três canais de televisão e inúmeras estações de rádio que retransmitem incansávelmente o conteúdo que as suas respectivas matrizes lhe mandam. Conteúdo que, na minha humilde opinião anda desbotado, de tanto se repetir.

Produtoras que se focam em atrações internacionais e espaços de apresentação privados para tais atrações. Olho para este contexto e acho que o ofício de artista é uma ilusão, principalmente por que:

Os artistas que realmente poderiam produzir arte significativa para a sociedade em que vivem – coisa que eu acho que apenas o usufruto da oxitocina liberada pela performance artística não dá conta de fazer, morrem e não alcançam a sociedade de uma forma contundente.

Os artistas que estão afetando a sociedade estão cada vez mais “desbotados”, cada vez mais adequados aos “padrões de qualidade” e gorgolejando sempre o mesmo conteúdo de formas diferentes há algumas décadas. Algumas tragédias chegam ao ponto de nem saberem o suficiente para fazerem a suposta arte que alegam fazer e contam com subterfúgios (vide Autotune, no caso da música).

Pra que o ofício exceda seu caráter de miragem, precisa-se de mercado, de perspectiva e de real possibilidade de rentabilização de obras culturais locais. E isto em cada canto do planeta, não só aqui.

Um dos momentos mais tristes da minha vida…

A conclusão que eu chego é que, toda esta sinuca de bico em que a arte local está comprova que ela é um ofício extremamente perigoso para quem está na hegemonia. A ignorância que hoje é sistematicamente aplicada é estratégica. E vinda de um estratagema muito bem elaborado, que apaga muito bem os seus rastros. Deixar a diarréia de obras culturais de massa desbotadas obliterar os espaços para sobrevivência da verdadeira expressão das pessoas da localidade, para as pessoas da localidade é uma coisa muito consciente pra se chamar de simples acaso.

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