Nem tudo que reluz é amor (correspondido)

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Eu sabia que era amor, quando você entrou naquele avião, desembarcou em outra cidade, pegou a chave na portaria do meu prédio, entrou no meu apartamento e chamou ele de “nosso”. Eu senti um bocado gigante de amor, quando você abriu a porta e eu me senti em paz por te ver do outro lado da soleira e desejei que aquela cena se repetisse pelos próximos cinquenta anos. Descobri que era amor, quando me disseram que eu chamava seu nome dormindo- e você comprovou isso depois. Quando tive uma crise de pânico no meio da rodoviária e me concentrei na memória de você me olhando na minha cama dizendo que eu estava linda e, pela paz que você me causa, eu relembrei como respirar. Sabia que era isso, porque quando eu comecei a querer te contar tudo o tempo todo eu já estava com a água no pescoço e jurava que ainda dava pé. Jurei que não tinha jeito de me afogar em você, porque você não representava tanto risco assim. Porque eu sabia o que estava fazendo, mesmo tendo consciência de que eu nunca sei. Sabia que era amor, porque mesmo do seu jeito atrapalhado de sentir que muita gente não entende, não tolera e não sabe lidar, eu consegui sentir igual e não me importa se isso é certo ou não. Porque quando eu não consegui dizer, você entendeu. Porque quando eu me senti incapaz, você ainda foi capaz de me provar o contrário. Porque a sua versão mais frágil, demora exatas três taças de cabernet para aparecer e eu consegui contar isso em todas as vezes que dividimos uma garrafa- ou três.

E daí, porque eu sou como sou, preciso sentar aqui, agora, falar por horas que quando você sorri meio bêbado dizendo que aceita se casar comigo, mesmo sabendo que é mentira, eu sorrio. Sorrio, porque você também sabe que eu sou incapaz de falar sério sobre isso. Preciso esclarecer, que muito antes de saber o seu sabor, eu já queria entender os teus silêncios e hoje, quando entendo, tenho medo de estar tão dentro de você que não seja mais capaz de voltar atrás. Sinto o amor brotar quando falamos do filho que não teremos. Quando você me presenteia com suas verdades, quando me compara com Bukowiski e sinto sempre quando você me diz “escreve sobre isso”. Quando você lê, quando você repara, quando você tira a rolha do vinho e cheira de olhos fechados. Quando a humanidade te estressa, quando você quer contar a sua história, quando você não quer falar sobre nada disso, quando você vasculha meus livros e lê alguns trechos avulsos, quando se desculpa por ser como é. Quando você compara meu banheiro com as feiras francesas do século dezoito. Quando o cigarro queima até o fim e eu descubro novos prazeres e hábitos. Porque você não ri do trivial, porque não faz as piadas de tio de churrasco, não me dá tédio quando discursa longamente sobre algo, porque faz as perguntas que ninguém faz. Amo, porque a sua meia ficou na minha gaveta e você nem sabe que eu a uso para dormir, porque você não tenta me provar que é mais inteligente do que parece. Te amo, porque você tem medo de dar beijos adolescentes em ruas escuras dentro do carro, porque não me pede para tirar a blusa, mas sim despir armaduras. Porque temos apenas uma foto e não um álbum bobo de casais comuns. Porque você aprendeu a gostar do meu cabelo enrolado, porque prefere quando eu sorrio de lado, porque a parte do meu corpo que mais te atrai é meu cérebro e meu batom vermelho me lembra você. Porque, em outros casos, você estaria nadando num limbo emocional, mas eu preferi acreditar que a sua falta de jeito é o jeito que você encontrou de amar. Porque você fica lindo quando se impressiona com algo. Porque você se anima com as minhas novidades e conquistas. Porque você conversa comigo enquanto corre na esteira e porque sempre dá um jeito de saber das minhas novidades. Porque fica bravo quando eu esqueço de te contar sobre a nova proposta de emprego, porque quer me ver dando entrevistas como uma grande escritora e porque espera ansiosamente o dia em que eu lançarei meu livro.

Eu vi amor em você, quando a sua agenda não me encaixou mais e eu quis me enfiar num buraco infinito e nunca mais voltar a ver o sol. Quando você decidiu que não era tudo isso, era eu quem estava vendo demais. Vi amor, porque quando o amor se torna físico, palpável, ele pesa. Porque já não significava tão pouco a sua boca na minha, sua mão na pele, o seu toque no meu rosto. Porque eu acho que você notou que a minha cicatriz no joelho é mais feia do que eu pensei que seria. Porque eu sinto que você notou que eu sou difícil de amar e por isso as pessoas me perdem. Me senti insegura, insuficiente e insensata, e daí eu vi que isso eram sintomas de amor- amor não correspondido. Amor que dá medo. Que fere e ainda se apresenta como amor, porque no final das contas ele é, só não é o ideal que a gente deveria viver. Entendi que aquilo virou amor, quando ele era imensamente claro para mim, mas você não viu. Eu entendi que tinha amor demais, quando decidi me silenciar e me afastar, porque eu já sentia o cheiro do meu sangue como rastro. Porque dirigi chorando depois do nosso último jantar. Porque a minha cara parece disforme diante do espelho e porque nenhuma mensagem me parece importante se não fala sobre seu dia. Eu vi que era amor, porque agora eu divido o vinho com a minha solidão e a minha versão mais frágil voltou a se esconder. Porque eu não tenho você do outro lado da cama. Porque eu me refiro a você como passado. Porque eu repito seu nome como mantra para ter certeza de que você existiu algum dia. Porque nesse momento, nessa linha infinita que vai se estender pelo tempo e espaço que compõe o universo, você me dói.

Você me dói imensuravelmente.

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