Série Mulheres Árabes | # 26 Yara Said

Yara Said. Foto: Khaled Youssef.

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita por Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Yara Said, uma jovem talentosa artista, que se formou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Damasco. Atualmente reside na Holanda, como assistente social voluntária (expressão através da arte) da organização TESC, e também é voluntária de uma startup de cuidado aos refugiados. Nascida em Al-Suwaida, Síria, ela vive e trabalha em Amsterdã.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Yara Said – Meu estúdio é minha casa. É o único lugar na terra onde me sinto real e produtivo, o único lugar onde posso ser cem por cento genuína. É um lugar onde posso me reunir com amigos e ter novas experiências. Um monge tem um templo, um artista um estúdio.

Foto: Khaled Youssef.

CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

YS – Eu gosto que meu estúdio esteja pronto para o trabalho a qualquer momento. Ordem para mim significa apenas que eu seja capaz de encontrar minhas ferramentas facilmente! O caos criativo sempre foi minha coisa favorita na vida. Para mim é uma coisa muito importante ter o meu estúdio perto da minha casa. Eu acho que é o sonho de um artista ter acesso 24/7 ao estúdio e ser capaz de mergulhar no processo criativo sem restrições. E é isso que estou tentando fazer aqui agora.

CH – Você ouve música em seu estúdio? Você trabalha melhor com alguma música tocando ou necessita de silêncio completo quando está em seu ápice criativo?

YS – Música é minha vida. Nietzsche disse: “Sem música, a vida seria um erro”. Quando eu preciso me impulsionar, eu escuto música alta. Quando eu quero rememorar coisas sobre minha terra natal, um café da manhã escutando Fayrouz nunca deixa de trazer velhas boas lembranças piscando em minha mente. Se os seres humanos alguma vez fizeram descobertas valiosas e poderosas, então foi a música.

Foto: Khaled Youssef.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

YS – Oh não, eu nunca planejo! Eu apenas vivo e vivo! E então, quando eu estou cheia de todas as emoções, de todas as coisas que ouvimos e vemos na TV, quando me sinto mais desesperada e não posso fazer nada para mudar o mundo, eu pinto usando jornais e materiais antigos.

Eu costumava escolher cores de tinta do jeito que eu escolhia minhas roupas. Hoje estou usando vermelho sexy ou azul frio, talvez branco liso. Neste caso, o que você vê é “exatamente” o que você obtém. Minhas impressões são eu.

CH – Sobre o que é a sua arte?

YS – Quero que [minha arte] não se manifeste; quero que [ela faça] as pessoas se manifestarem. Quero que mova as pessoas e as sacuda inconscientemente e conscientemente. Se houvesse algo que minha arte expressaria, então seria a natureza humana (minhas experiências são as mesmas que as suas). Acabei de encontrar minha própria linguagem.

Foto: Khaled Youssef.

CH – O que te inspira?

YS – Muitas pessoas incríveis. Meu número um por agora seria Mark Rothko. Então Antoni Tàpies, Jean-Michel Basquiat, Francis Bacon, Yves Klein, Picasso, Monet, Gerhard Richter, Carl Jung, Sigmund Freud, Milan Kundera, Franz Kafka, Radiohead, Janis Joplin… Inspiração está em toda parte!

CH – O conflito na Síria, que está acontecendo há alguns anos, teve um impacto sobre o elemento central da sua arte? O que mudou?

YS – Eu não posso realmente saber sobre isso, já que minha experiência artística floresceu no meio da guerra. Pergunto-me quão diferente minhas experiências teriam sido se a guerra não tivesse acontecido, como eu teria me tornado [uma pessoa] diferente.

Foto: Khaled Youssef.

CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

YS – Absolutamente, eu acho que cada lugar deixará suas impressões. Cada nova cidade é uma nova experiência. Amsterdã, por exemplo, me fez realmente consciente da crise global do capitalismo ocidental e europeu. Na Síria a minha única preocupação era sobre questões de vida diária, e nos últimos 5 anos sobre como evitar mísseis. No entanto, Amsterdã tem o seu próprio encanto. Eu não posso esperar para visitar novos países e ver as melhorias e mudanças que terá no meu trabalho.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

YS – Como artista o meu único desejo é me tornar uma artista em tempo integral; parece muito simples, mas precisa de muito trabalho duro e concentração. Como artista síria, quero contar a minha história, a história do meu país, as histórias dos meus amigos de forma esclarecida ao mundo inteiro.

Talvez então os povos do mundo poderiam sentir o horrível do que está acontecendo na Síria agora e o impacto deletério que tem na vida das pessoas. Talvez então o mundo compreenderia como seres humanos desumanos realmente são, e quão pernicioso e perigoso é o ambiente digital de mídia social e realidade virtual em que vivemos atualmente.

Foto: Khaled Youssef.

Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

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