Doa-se verdadeiramente

“Tenho em mente que não nasci pra apenas jogar, o meu negócio é vencer. Mas pra toda vitória, há, sim, uma perda.”

Teve esse dia que, de certa forma, modificou tudo em nossas vidas. Você falou algumas coisas que não sabia, mas insistiu mesmo assim. Foi praticamente um tiro no escuro e o único alvo disponível era eu. Eu não posso julgar os motivos que fizeram você agir dessa forma, eu nem tenho esse direito, mas só queria que você soubesse que doeu e que, mesmo assim, não modificou nada. Está tudo da mesma maneira de quando você virou e foi embora.

Sabe o que é? Muita coisa já aconteceu comigo e você sabe disso muito bem. Eu nunca te escondi nada, dos meus piores pesadelos eu compartilhei, dos meus maiores sonhos também. E hoje vejo o quanto não foi justo o que você fez com tais informações, porque de tantas coisas que poderiam acontecer, aconteceu justo a mais imprópria. Olha só, entenda de uma vez, eu não tenho como mudar o que comigo aconteceu. Faz tempo, já passou, mas ainda dói de vez em quando. Aquela cicatriz que deixaram em meu peito, nele continua. E suponho que nele pra sempre ficará. E é até bom que isso aconteça, pois pra cada dia ruim que enfrento, eu sei que depois de um tempo toda a sensação de invalidez vai passar. Nada é eterno, nem mesmo as dores – as minhas e também as suas. Só, por favor, não piore a situação, tá? Eu já faço isso muito bem sozinho.

Eu sei que você não consegue compreender, que já fez de tudo pra saber, mas não adianta, eu não vou te deixar entrar nesse quarto escuro em que abriguei os meus medos. Não são poucos, já aviso de antemão, você irá se assustar, então não insista em algo que você sabe que não vai dar. Tenho em mente que não nasci pra apenas jogar, o meu negócio é vencer. Mas pra toda vitória, há, sim, uma perda. E a minha foi bem aquela pessoa que me fez sentir o céu e o inferno em um único dia. Céu por achar que estava tudo bem, inferno por descobrir que o tudo bem não estava tão bem assim. Não entendi bem o porquê de tudo aquilo, mas consegui adaptar a minha vida com relação a tudo que me aconteceu depois. Inclusive, me adaptei até aos seus trejeitos que de início achei únicos demais para serem verdadeiros.

Escondi​ informação demais ao longo desses últimos anos, foram tantas que se transformaram em fantasmas em minha mente. E o grande ponto não é discutir sobre o que devo ou não falar aos outros, mas se quero ou não. As cicatrizes ainda são recentes, não há motivo para cutucá-las logo agora. Nada vai mudar, lembra? Porém, ao mesmo tempo em que tenho isso inserido em meu ser, eu quero que haja mudança e até cogito em compartilhar algumas coisas. Só que essas são pensadas tão minuciosamente que tornam-se automáticas e falsas. E tá aí outra coisa que não gosto: a falsidade. Porque, vamos lá, se estou hoje, aqui, me despindo em forma de palavras, não há como eu não gostar da sinceridade. Em outras palavras: não há como eu querer indícios falsos quando só registro verdades em meu ser. Verdades, essas, que inclusive doem.

Às vezes até doem demais.

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