Série Mulheres Árabes | # 29 Lina Shadid

* Este artigo é uma tradução livre da publicação feita no Creative Havens: Syrian Artists and Their Studios. Para acessar a publicação original, em inglês, clique aqui.

Lina Shadid é uma pintora impressionista síria. Fascinada pela natureza e luz, a artista tenta capturar um senso de humor etéreo e espiritual em suas pinturas. Atualmente, ela vive em Nova York, EUA.

Creative Havens – Qual é a sua relação com o seu estúdio? O que ele representa para você? Como você se sente quando está lá?

Lina Shadid – Minha relação com meu estúdio é possivelmente a mais bela que já experimentei. Eu trabalho lá diariamente de dia ou de noite, com entusiasmo e com toda a minha alma. A sensação de escapar do mundo mundano [sic] onde estou livre de todas as minhas dores é indescritível. Com o início de cada nova história, deixo-me surpreender por onde me levará a jornada da criação, sem saber realmente em que direção tomará.

CH – O layout, a organização e a localização do seu estúdio têm influência na criação das suas obras? Que papel esse espaço, tempo e solidão têm em seu trabalho?

LS – Enquanto trabalho no meu estúdio, meu humor varia entre ordem e desordem. Desordem é geralmente a atmosfera necessária para criar obras de arte originais, mas às vezes eu preciso organizar meu espaço, a fim de monitorar melhor os resultados. A coisa mais linda para mim é que meu estúdio é também o lugar onde eu moro. Assim que eu sinto o desejo de criar, desço para o porão da minha casa e começo a trabalhar. As coisas transbordam. Esta liberdade de criar é essencial para mim e, obviamente, a solidão é necessária desde o início até o fim. Algumas noites eu acabo ficando até o amanhecer sem obstáculos ao meu desejo de criação. Eu mesmo não sinto os efeitos do tempo passando.

CH – Você ouve música enquanto está trabalhando?

LS – Eu nunca posso começar a pintar sem ouvir a minha música favorita: música clássica em geral e, particularmente, Chopin e Tchaikovsky. Vibrar com a música leva minha mente para o reino da criação artística e eu, por sua vez, deixo meu pincel dançar através da tela. Às vezes eu escuto Oum Khalthoum, Abdel Halim Hafez ou Najat. Apesar de sua beleza, essas melodias árabes despertam tristeza em mim.

CH – Quais são suas práticas artísticas e seu processo de trabalho? Você planeja?

LS – É muito raro que eu esteja planejando uma pintura. Normalmente, eu simplesmente começo a pintar sem saber aonde vou chegar.

CH – Sobre o que é a sua arte?

LS – Minha arte é sobre a beleza da natureza e da luz, sob a forma de uma mulher ou uma mãe que espontaneamente e perpetuamente dá o seu amor. Gosto de humanizar a natureza e sua beleza que nem sempre somos capazes de ver. Em minhas pinturas estou tentando dizer palavras de amor e deixar a natureza contar sua própria história.

CH – Ser artista é um trabalho difícil. Você tem algumas dúvidas e grandes lutas/esforços?

LS – Isso era verdade no passado. Hoje eu sou capaz de superar essas lutas e dúvidas e continuar trabalhando. O único desejo que tenho é criar mais e mais.

CH – Você alguma vez se arrependeu de ter se tornado artista? De onde sua energia vem?

LS – Eu me sinto muito feliz com o que estou fazendo hoje em dia, embora nunca tenha planejado me tornar uma artista profissional no sentido materialista. Quando me sinto triste, minha atividade artística aumenta e eu vou mais rápido para terminar uma pintura. É como se eu estivesse acelerando a liberação das emoções.

Cada vez que eu vejo uma foto do meu pai ouço o sussurro vindo de longe: “Eu lhe disse uma vez que você se tornaria uma artista, certo?” Meu pai é a razão de por que estou criando, sua crença em mim e seu encorajamento são a minha principal motivação e, em seguida, vem o meu amor à natureza e à luz, que eu estou feliz em traduzir em minhas obras de arte. Minha maior felicidade vem das pessoas que amam meu trabalho e querem tê-lo.

A palavra “artista” tem sido o meu sonho desde a minha infância, e agora estou me perguntando: Eu sou uma artista? Eu sei que eu tenho que me tornar mais e mais (também para provar para mim mais e mais).

CH – Quanta satisfação você recebe em resposta ao seu trabalho?

LS – Eu estou constantemente me esforçando para fazer melhor, mas a minha satisfação sobre o meu trabalho está se tornando mais profunda dia após dia.

CH – O conflito na Síria, que está acontecendo há alguns anos, teve um impacto sobre o elemento central da sua arte? O que mudou?

LS – A Síria é a maior dor e a mais profunda tristeza do meu coração. Na arte, há uma grande diferença de percepção entre as culturas. Os artistas são mais valorizados na cultura ocidental, e desde que cheguei aos EUA eu poderia ir mais longe com meu trabalho e ver mais valor na minha criação.

CH – Se você está vivendo fora da Síria, o lugar em que você está vivendo mudou sua arte?

LS – Apesar da distância da minha pátria, minha presença aqui na América, onde eu estou vivendo, aumentou minha fé em minha arte.

CH – O que te inspira?

LS – Natureza, luz e amor me inspiram.

CH – Quais são as suas esperanças e sonhos para si mesmo como artista e, especialmente, como uma artista síria?

LS – Espero ter exposições em todos os Estados Unidos e em muitos outros países, e eu sonho em ter minha própria galeria onde eu possa mostrar a criatividade de artistas sírios e outros artistas de todo o mundo. Enquanto isso, o meu maior sonho é ver a paz voltando ao meu adorado país Síria.


Este artigo faz parte da Série Mulheres Árabes, publicações diárias durante o mês de março, com o intuito de contribuir com a visibilidade das diferentes narrativas protagonizadas por mulheres árabes. O projeto é de autoria de Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços e estudante de Letras Português-Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

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