Os diferentes sons do silêncio

“Tragam-me de volta os raios de luz que iluminavam a minha alma, sem ela eu não sei se sou capaz.”

Seria irônico dizer que o vazio, quando alocado bem no meio do peito, dói? Pergunto isso apenas para saber se o que se passa comigo é normal ou não. Penso que a ausência de algo não deveria fazer tanto estrago assim, mas pelo visto estive enganada por todos esses anos. Gostaria de saber o porquê disso acontecer logo agora. Não é justo cultivar algo tão bom para, depois de algumas palavras mal ditas, tê-lo arrancado de forma bruta e contínua. Dias se passaram desde o sumiço de tal sentimento, mas o buraco continua intacto, quando não alguns centímetros maior. Não era pra ser assim, nada disso estava no planejado. Mas eu não tenho controle sobre o que acontece em minha vida. Talvez nas pequenas coisas, mas não em algo desse tipo.

Os dias vão continuar assim? Cinzas, apáticos, ausentes de alegria? Eu costumava me encantar com os pássaros de manhã. Costumava, também, a sorrir para quem estivesse através de minha janela, só para ver se teria o sorriso de volta. Faz tempo que não o tenho, até mesmo o meu espelho esqueceu de como sorri. É tudo tão duro, árduo. Já me vejo sem forças para seguir e permanecer, ao menos, lutando por mais um dia. Dias assim não deveriam existir. Tragam-me de volta os raios de luz que iluminavam a minha alma, sem ela eu não sei se sou capaz. Eu nunca fui e com essa ausência de tudo, talvez não tenha a chance de tentar ser.

Já cansei até de minhas próprias visitas, os meus fantasmas pedem para eu não mais aparecer. Eu sei que no fundo tudo vai ficar bem, o problema é justamente entender que isso pode levar um pouco mais de tempo ainda. Se eu pudesse, já tinha dado um jeito em tudo, mas é meio impossível esperar que um milagre aconteça no meio desse mar de coisa ruim que me assombra. Não estou preparada para ouvir o eco de minha própria voz. O silêncio já me pertence, o ar está rarefeito, quantos dias mais eu hei de aguentar? Espero por um chamado qualquer, uma mão estendida em prol de me ajudar. Eu só espero que não a agarre para tentar me afundar de vez. Eu não posso lidar com todas as perdas novamente.

Continuo aqui, sem saber pra onde ir. As lágrimas escorrem soltas pelas curvas de um rosto que já esbanjou sentimentos bons por todos os lugares em que um dia passou. Os passos estão mais raros; os suspiros, mais rasos. Perdida no meio de uma desilusão, projeto minha vida sem imaginar sair daqui. Para onde quer que eu vá, sei que o vazio irá me acompanhar. Talvez o problema não seja eu afinal, mas sim tudo o que um dia já me satisfez e que hoje se desfez. Sei que daqui uns dias eu estarei longe disso, do vazio e da ausência. Mas enquanto ele não chega, escrevo palavras sem sentido pra ver se consigo me completar.

O que eu jamais desconfiaria era descobrir que não sou cheia de mim mesma. Acabei entendendo que nenhum vazio será capaz de desfrutar do que eu realmente​ sou, já que nem eu sei. Para onde vou? Algum outro tipo de buraco, eu espero. Profundo, escuro, sem ecos de um silêncio ensurdecedor.

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