Sobre medos e desejos e você

Van+der+Pop+Wine+vs

Eu tenho uma gaveta cheia de contas para serem pagas, uma infinidade de responsabilidades adquiridas precocemente, terapia de 15/15 dias e eu tenho você. Eu tenho os fios do seu cabelo dançando entre os meus dedos e depois o frio e o vazio e o nada. Eu tenho o sofá da sala me encarando e perguntando se eu sonhei ou se você realmente esteve aqui há menos de 12 horas- ou 12 meses? Eu tenho a ansiedade compulsiva de ser escrava de desejos impossíveis, tenho uma tabela de coisas para fazer antes de morrer- porque eu penso demais sobre a morte– e uma vontade salgada sobre deitar no seu ombro e explicar que eu tenho a sensação de que morri todos os dias até chegar aqui. Daí eu começo a lascar a unha do dedão da mão esquerda, porque eu preciso ferir alguma coisa, mas tenho pavor da dor. Eu começo a mentir para você e para mim, sobre a meia luz deixar os seus traços mais decentes e doces, porque eu tenho pavor da felicidade e de você.

Eu tenho um medo absurdo da insanidade e vivo tentando encontrar traços meus em distúrbios mal explicados, como boderline, mas outro dia você disse que eu sou louca, só isso, e tudo bem também, porque você nunca foi muito normal. Eu ouço toda a trilha sonora do filme que você não viu, mas que já deve gostar, eu como a metade dos chocolates que eu ganhei de páscoa porque eu sou tão louca que comê-los inteiros me dá ânsia só de pensar e eu confio demais em estranhos, porque eu tenho pavor das pessoas me conhecerem de verdade. Eu tenho seu número no celular, mas eu finjo que não, porque eu tenho medo da caixa postal. Eu tenho vontade de conversar com cada pessoa que já cruzou o seu caminho para saber se eu te conheço de verdade e agora, nesse instante, eu acabei de lembrar que você fica muito bem de camisa rosa e que eu fico nervosa quando olho tempo demais para o interior dos seus olhos e tenho medo que alguém te leve para tão longe que eu não consiga esticar os dedos e te tocar- e não coloquei vírgulas nisso, porque quando eu penso sobre você é essa sensação de ficar sem ar e só ter pensamentos e pensamentos vindo como uma fonte inesgotável de cenas aleatórias e eu posso explodir em qualquer momento e te sujar com as minhas realidades tão famintas. Eu tenho livros e mais livros acumulados, eu li artigos relacionados sobre a sua tese, eu tento acalmar meus ânimos quando você tá sem saco para ser o que eu desejo e é apenas a versão dura e seca, que me causa tremores involuntários.

Eu tomo uma quantidade exagerada de café em dias mais frios, porque as minhas mãos vivem geladas e eu sei que isso não tem muita lógica, mas eu tenho medo da palavra “gangrena“. Eu tenho uma memória estranha, porque eu esqueço de coisas importantes, como tomar o meu remédio todas as manhãs, mas lembro da maneira como você abriu o vinho depois de comer a minha comida e da camisa que você vestia e do seu aniversário e tenho medo das palavras “choque anafilático”, porque você me explicou o que era e eu nunca mais fui a mesma pessoa. Eu consigo dirigir seu carro e te deixar enfurecido, mas consigo também te fazer reavaliar certas certezas que eram imutáveis e quando você coloca as mãos nos bolsos, feito menino contrariado, eu me sinto com a minha missão cumprida no planeta e é como se eu visse pela sua pele uma linha pequena de luz da qual eu me alimento e começo a ter medo de querer que você seja a minha fonte eterna de lucidez. Eu levo a minha vida de maneira independente, incoerente e indecisa, mas consigo ter meio centímetro de aconchego na minha bagunça, se você quiser. Se você quiser ficar mais do que o deleite imaculado que eu tenho de ver os seus olhos fechando aos poucos, mais do que o tempo de escolher se eu guardarei aquilo para sempre ou fingirei que nunca aconteceu, mais do que a minha necessidade de repetir mentalmente a palavra “coxas”, enquanto você divaga sobre as teorias neoclássicas de filósofos que eu li só a orelha dos livros. Eu gosto de ver como você parece ter metade do seu tamanho quando está no meu colo, mas tem o triplo do tamanho da cidade quando o seu nome aparece sem querer numa conversa qualquer. Eu tenho a sensação absurda de que daria para construir dentro de você um apartamento com dois quartos e morar dentro do seu estômago, sem vizinhos e sem nada além do que você me proporciona e me dilacera- e isso também não faz sentido algum, se você parar para pensar. Eu tenho medo de você terminar de me ler um dia, enjoar e buscar novos autores. Eu amo a sua camada insalubre que fica entre me beijar e se culpar depois ou deixar o momento ser perfeito, mesmo podendo ser mais. Eu vou congelar uma célula imaginária para que você a encontre intocada e seja parte sua, eu vou rasgar um pedaço de um verbo, inventar uma nova gramática e redefinir todas as minhas euforias, para que um dia você consiga se encontrar, me encontrar e me consumir, enfim, sem medo do que isso possa parecer daqui dez anos, dez segundos ou depois desse ponto final que não indica nenhum fim e também me dá medo.

Advertisements

5 comments

  1. Quero que seja um elogio: você destruiu meu coração em cada linha desse texto como se pegasse ele com as duas mãos e o apertasse até ele escapar entre os dedos e fez, também, eu perder o ar pra chorar um pouco. Bom, obrigada.

    • Obrigada Vivian!!! Que bom que você gostou e se identificou e que ele te tocou de maneira tão profunda. Meus textos são para isso, para servir de identidade!! Um big beijo e volte sempre! ❤

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s