Louca

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Décimo sétimo dia de antidepressivo e a minha terapeuta me pergunta como estão indo as coisas depois da medicação. A verdade é que eu andei tão fora do eixo, que agora parece que eu me tornei uma pessoa tediosa e sem muitas novidades. Agora, toda estável, já não tenho mais crises de pânico no meio de uma rodoviária e nem dou show privado no hospital achando que a agulha do soro está mal colocada na minha veia e eu vou morrer numa hemorragia interminável enquanto todos me assistem convulsionar. Meu trabalho está bom, eu consigo ser simpática até com gente que eu não engolia nem com doses exageradas de boas intenções e ando rindo até da piada do “pavê ou pacumê”. Me sinto confusa só por conseguir escolher um filme na Netflix em menos de dez minutos e meu melhor amigo logo vai enjoar de mim, porque eu ando feliz demais e a gente geralmente se entende quando reclama de alguma coisa em comum.

Logo, vocês me verão na embalagem econômica, ecologicamente correta e sendo reaproveitada por algum ser humano de boa fé que irá ter pena de mim e me usar de adubo emocional em algum experimento terapêutico- me sinto uma ampola de teste, algum ser extremamente emocional preso em algum laboratório e sendo corrompido por antisolíticos. E se eu nunca mais conseguir escrever? Porque eu só sei escrever sobre a dor e a loucura, então eu tô perdendo meu talento em cada comprimido? Alguém pode fazer alguma coisa, urgente? Mas eu encaro isso com um sorriso no rosto e preparo meu café da manhã assoviando Chopin, enquanto o pão torra na torradeira e eu olho o relógio me desafiar a conseguir sobreviver até depois das 21h sem morder ninguém que me desagrade. Não, não estou reclamando do resultado positivo do tratamento, até porque a minha pele melhorou muito e eu perdi uns quilinhos. Mas eu estou com aquele medo silencioso que nos aborda todas as noites: Perder a identidade em alguma esquina e descobrir que eu sou a minha vizinha, da qual eu tenho pena porque a pobre coitada acha que é feliz demais e não foi avisada que paramos de usar a palavra “docinho” nos anos 70.

Você também tem esse medo. Assume, só pra mim, não conto para ninguém. Você tem até uma dor de estômago só de imaginar em olhar o espelho e descobrir ser aquela pessoa medonha que acha que é perfeita demais para o universo e não precisa usar nenhum comprimidinho em jejum, antes do café. Medo de abrir essa casca invisível de sanidade que vestimos diariamente e descobrir que nada além de prazer e arco-íris habita você, porque no fundo nós somos essa versão escrota e muitas vezes depravada e maquiada, que apenas quem nos ama de verdade consegue conviver e aceitar. Talvez eu não sinta mais prazer em sentar no capô do meu carro e fumar cigarros aromatizados uma vez ao ano, pelo menos. Estar ao lado de alguém que não me conheça de verdade, que adotou uma versão polida e lúcida que nem eu admiro. Eu não tenho vergonha de assumir que nunca fui esse ser humano iluminado e radiante que todos sonham e aceitei isso com paz depois de muito tentar me moldar. Nunca almejei a perfeição. Eu sempre fui essa coisa nebulosa e meio estragada, esse rim aparente, essa pedra no sapato, e isso sempre me fez sentir certo conforto em viver pelo simples fato de ter aprendido a conviver com esses demônios emocionais sentados à mesa comigo, falando mal dos reles mortais que nada têm para se arrepender e aprendendo a dividir essa sinceridade toda com as pessoas certas e nos textos mais sinceros. Mas agora, agora eu sou essa moça dos cabelos bem arrumados e que consegue tomar uma garrafa de vinho sozinha e voltar para casa sóbria, no salto e sem perder a compostura. São 17 dias me sentindo digna de amor verdadeiro, estabilidade emocional e financeira e achando que tudo acaba bem no final das contas, porque somos seres criados para nos realizar no universo e encontrar um nirvana do qual eu nunca fui adepta. Louca. Eu precisei de uma cartela e meia para chegar na conclusão de que não querer ser essa princesa Disney só pode ser loucura e eu acho que estou indo na contramão do projeto “controle emocional até os 30 anos”.

-Doutora, eu sou a mulher mais louca da face da Terra!”– respondi por fim.

Ela sorriu, se inclinou para frente e me confortou da melhor maneira possível:

Ótimo, acho que agora a gente começou realmente o seu tratamento.

 

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