Ossos do ofício

Uma matéria de Maria Claudia Lara.

Imagine-se indo trabalhar a cada manhã em uma região da cidade. Muitos quilômetros a caminhar para cumprir seu roteiro de atividades em cenários e condições diferentes a cada dia, mas sempre, deparando-se com uma ameaça constante: os cães da vizinhança. Essa é a realidade de milhares de profissionais que tem as ruas como seu ambiente de trabalho, tais como leituristas de água e energia, carteiros e coletores de lixo.

O iminente risco e a recorrente situação de acidentes com mordedura canina em turno de trabalho levaram empresas de serviços públicos do Paraná a desenvolver, desde 2013, uma permanente Campanha de Prevenção de Acidentes com Cães – PrevenCÃO. As companhias de saneamento (Sanepar) e de energia elétrica (Copel), os Correios e a empresa responsável pela coleta de lixo na capital (Cavo/Estre Ambiental) uniram-se para conscientizar a população sobre a importância dos cuidados com os animais de estimação e de diminuir as duras estatísticas em Curitiba e Região Metropolitana.

O projeto piloto PrevenCão criou ações dirigidas a diversos públicos, como associações de moradores, crianças, profissionais de campo, profissionais do segmento veterinário, grupos de cuidadores e de adoção. Dentre as medidas de sensibilização planejadas, uma rapidamente ganhou destaque: uma peça de teatro infantil para apresentação em escolas, elaborada pelos próprios trabalhadores – do roteiro ao cenário, e à representação. A peça “Lugar de cão é pra dentro do portão!” conta as dificuldades encontradas pelos profissionais no dia a dia laboral para evitar ataques de cachorros. Mostra as atitudes corretas e erradas dos donos dos animais e pede, principalmente, que os cachorros fiquem presos e que os portões permaneçam trancados.

A peça é dividida em três atos: encenação dos “atores”, interação com as crianças usando parte dos uniformes de trabalho da equipe e encerramento com a música criada pelo grupo – um rap que ganhou o nome de “Prenda o seu cãozinho”. Após o teatro, cartazes da campanha são afixados nas escolas e as professoras recebem uma cartilha informativa e um encarte de atividades infantis para trabalharem o tema em profundidade com os estudantes.

Na primeira etapa do projeto piloto foram realizadas apresentações em todas as escolas públicas municipais dos bairros Tatuquara e Cidade Industrial de Curitiba (CIC) – regiões que concentram os maiores números de acidentes com cães na capital paranaense. Após assistir à peça na Escola Municipal Professor Osvaldo Arns (Tatuquara), Acklei dos Santos, 8 anos, aluno do 3º ano, compreendeu o recado. “A gente tem que prender nossos cachorros pra que eles não mordam as pessoas na rua”, lembrou.

Segundo o leiturista da Sanepar, Adriano Faria, o objetivo é de que os alunos levem o recado pra casa. “A ideia da campanha nas escolas é justamente para que os pequenos multipliquem a informação para os pais, vizinhos, amigos e parentes, tornando-as peça-chave na mudança de hábito da sociedade. Se 10% deles nos ajudarem a passar essas informações adiante, certamente teremos grande impacto nas estatísticas de acidentes – melhorando nossas condições de trabalho”, avalia. A ideia é exatamente essa: que as crianças levem essa simples orientação para a família, vizinhos, amigos, e passem a cobrar comportamento diferente.

No primeiro semestre letivo de realização da campanha, 23 escolas foram contempladas pelo projeto, atingindo cerca de 16 mil crianças em idade escolar. Com um índice de aceitação e retenção de, aproximadamente, 98%, o projeto ganhou, em agosto de 2016, um reforço legal, que estabelece responsabilidade sobre a guarda de cães em Curitiba.

LUTA ANTIGA
Para esses profissionais, a questão da segurança no trabalho não é apenas de controle das empresas, mas passa pela conscientização da guarda responsável junto à população. Sensível a isso, a Câmara Municipal de Curitiba criou em abril de 2016 a Lei 14.828, que atribui aos donos de cães a responsabilidade por danos causados por seus animais de estimação a carteiros, leituristas de água e luz, coletores de lixo e agentes comunitários de saúde.

Entre outras determinações, a lei obriga a colocação, em lugar visível e de fácil leitura, de placas que alertem para a presença de cães no imóvel (seja residencial ou comercial). O documento exige ainda a instalação de caixa de correspondência em posição em que o cachorro não tenha alcance e a garantia de acesso seguro para os agentes ou funcionários que necessitem entrar nos imóveis. Nesses termos, todo ato danoso cometido por animais passam a ser formalmente de inteira responsabilidade de seus proprietários, que respondem legalmente pelas consequências.

“Os trabalhadores são vítimas frequentes do ataque de cães porque seus donos não tomam os cuidados necessários. A grande novidade é que esta lei atribui responsabilidade ao cidadão para a preservação da saúde dos agentes públicos”, esclarece o gerente da Unidade de Faturamento da Sanepar, Denílson Belão. Ele recomenda que outros vereadores proponham em seus municípios leis similares, para “tentar minimizar este problema social tão grave para os trabalhadores e prestadores de serviços públicos.”

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