Te convido a ficar

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Senta aqui, vamos conversar. Não, não precisa ficar de sapatos, coloca os pés no sofá. Relaxe. Isso, me deixa deitar no seu ombro agora. Eu precisei tanto desse momento, principalmente depois do que aconteceu ontem, quando eu pensei que enfim tinha ficado tão louca quanto aquela mulher que amou o Rodín. O que houve? Ah, é que eu ando me olhando, firme e profundamente. Você não tem medo disso? O que sua terapeuta diz sobre se sentir inconstante o tempo todo? A minha diz que eu sou profunda demais, mas só consigo deixar as pessoas conhecerem o raso. Você já conseguiu mergulhar em mim? Hoje, você quer mergulhar um pouco? Talvez eu te mate, mas, acontece, não é?

Eu sei que se eu disser para você que eu tenho um medo absurdo de ter meu intelecto anulado pelos meus sentimentos, você talvez me diga que sente o mesmo e entenda claramente o que eu quero dizer com isso. Eu tenho uma vontade sangrenta de adquirir todas as enfermidades para entender a dor de maneira integral, e assim, entender o valor da compaixão- mas você me disse que se compadecer é meio improvável para sua natureza mais prática. Quase ninguém se compadece do outro, isso me engasga nas manhãs mais difíceis e me dá a visão real do que é pecado- pecado é não amar, você já me disse isso certa vez. Eu não sofro de nada além da necessidade compulsiva de sentir que estou atrasada para tudo e que o beco escuro que é me sentir sempre antecipada nos caminhos, vai me engolir a qualquer momento. Eu tiro minha roupa dura de certezas todas as vezes que um olhar mais ameno cruza comigo e admiro cada cicatriz que o seu corpo carrega- visível ou não. Talvez isso ainda seja um bocado de compaixão- quem nos dirá, afinal?

Eu não aprendi a dizer nada menos do que “eu te amo”, quando amo, e não aprendi a entender que o outro não é capaz do mesmo, seja sentir ou dizer. A reciprocidade me confunde, me tira um órgão e me deixa vazia na maioria das vezes pelo simples fato dela ser uma escolha e nem todo mundo está pronto para isso. Sentir sozinha, me ofende. Abrir a boca e não ter voz para revindicar saudades, me corta os pulsos silenciosamente. Será que você consegue conviver com isso, o tempo todo, ano após ano, sem querer me jogar numa valeta imaginária onde as pessoas são colocadas quando começam a questionar demais?  Quando você sorri assim, me mata. Finja que não entende tudo, com tanta paciência e me dê um soco no meio do olho direito que é para eu criar coragem de sair do seu ombro quente. Por favor. É como se a comida sempre precisasse estar diferente, é como se o amor nunca fosse o suficiente, é como se eu jamais, por nenhum motivo no mundo, conseguisse pertencer realmente aos teus olhos, porque nada nessa vida me manteria estática. Deve ser porque eu aprendi a amar tudo aquilo que me danifica e a sua mania de me consertar destrói essa versão híbrida que vive sorrindo e cuspindo nessa porra de mundo.

Eu me sinto o vento, depois eu sou a âncora e daí eu já não sei mais. Eu curo a ferida, depois eu arranco aquela casquinha e começo a ficar feliz por ver ela vazar. Eu sou o silêncio, mas eu sou a cavidade superior do seu coração que bombeia sangue e mais sangue e tem apenas a função de te manter vivo. Ainda que eu queira te matar e morrer de amor, muitas vezes é só o que eu tenho, os teus ares de compreensão e perdão que me dignificam perante a lucidez sórdida e mórbida e tediosa que muita gente resume a vida. Mas mesmo aqui, agora, abrindo todas as portas de mim para que você me entenda- e mergulhe- eu me sinto só. Eu sou um poço de solidões que vai ficando mais fundo todas as vezes que alguém tenta entrar. Eu sou um barulho inaudível todas as vezes que alguém afirma de pés juntos que consegue me ouvir. Eu minto, e quando digo a verdade, você me diz que não pode ser. Eu sou absurda, eu sei. Absurdamente instável e (in)coerente, eu posso estar diante de uma grande conquista ou posso ter morrido no chão frio do meu banheiro, você nunca saberá.

Mas se houver um tempo, uma razão simples para ficar, agradeço imensamente. Pode pegar o vinho na adega, pode acender o abajur e fechar as cortinas. Quer mais açúcar? Seja por café ou por amor, seja por carência ou a famigerada compaixão, sinta-se em casa. Sinta-se em mim. Mergulhe, antes de se afogar. Afinal, mentes sãs, nunca trouxeram grandes novidades.

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