A física (ou matemática?) do amor

​Eu sempre fui o tipo de pessoa que chora com muita facilidade. Sempre. Meus sentimentos são líquidos, densos e do tipo que se molda ao ambiente, mas não se altera. Eu sinto com jeito de água turva, maré enganosa. Eu esvaio feito rio que segue o fluxo e vai, sem saber o que o destino lhe reserva- uma queda d’água ou um oceano? De olhos fechados, vou. Eu nunca tive medo de me afogar dentro de mim e tampouco curiosidade por saber o que será lá no final. Por muito tempo me senti vagante, até poder aceitar meus ciclos e amar minhas vontades regidas por ordem da lua. Por isso o choro fácil, porque tem dias que simplesmente não caibo em sorrisos pálidos, eu não aprendi a ignorar a dor- minha ou sua.

Mas para meu azar- ou sorte- eu sempre amei pessoas sólidas. Pessoas que definiram o amor num manual, numa divisão, equação impossível de se calcular. Amei os que consideram isso uma fraqueza, um desvio, uma distração. Amei os que achavam que era assunto longo, um peso morto e já cheguei ouvir que o amor era só um teoria, uma brincadeira de enzimas no cérebro. Eu amei pessoas de olhos fixos, enquanto eu fluxo. Como raios eu pudera pensar que conseguiria viver eternamente assim, ao lado dos indifetentes? Amei a matemática dos que sentiam dentro do que era certo por regra enquanto eu fui sempre errante, enquanto eu era mar de letras, para explicar que eu gosto de fazer parte do que nos causa incômodo, porque só com isso eu encontro a paz. Sempre fui invasão, nunca soube amar de longe e respeitar as leis da física sobre dois corpos no mesmo espaço. Eu entro na sua pele e daí já sou as fibras dos seus músculos e casa dos seus exageros. Eu faço parte das juntas dos seus ossos e quero ser a saliva estrangeira que muda o gosto do que você sente. 

Amei os que sempre se orgulharam de suas vaidades e de suas capacidades  de passarem ilesos por paixões. Sabe, um dia achei que poderia me solidificar dessa maneira e quem sabe ser mais silêncio e não querer te manter no meio desses lençóis cor de cólera. Passei por esses amores pitagóricos, sem notar que tudo isso era apenas um abraço sádico da solidão que se faz amiga e destrói a capacidade bonita que nós temos de sentir. Por sorte, a conformidade não me assola, porque eu sou o caos e não consigo subsidiar a necessidade básica dos auto-suficientes, que é fechar os olhos para o que ocorre ao meu redor. Eu sou sempre um pedaço maior do que eu deveria ser e eu quero sempre dar tudo, mesmo quando eu não tenho nada. Eu sempre admirei essas pessoas falsamente fortes, representadas por discursos maduros e cheios de pseud. sabedoria, porque eu não era capaz de ver a insegurança triste escondida no prazer de afirmar: “Eu nunca digo ‘eu te amo'”. Achei por muito tempo que esses seres sólidos, tão discernidos, eram evoluídos sentimentalmente, mas percebi que isso é só o reflexo do medo coletivo que se estendeu pelo mundo de que alguém nos toque profundamente e nos altere a ponto de perdermos nossas confortáveis mentiras cotidianas que nos iludem dizendo que a liberdade não pode ser vivida em par.

Pois bem, eu nunca tive medo de permitir que alguém me altere, me toque e mergulhe e marque o que eu sou eternamente. Amei, amo e amarei por fidelidade ao que acredito. Desisti de tentar ser estrutura indestrutível, intocável. Até porque, nós sabemos que água sólida é gelo. Sendo assim, não aceito nada menos do que entrega voluntária e inteira. Nada menos do que o salto cego dos que estão dispostos a descobrirem para onde esse rio nos leva.

Segure minha mão, ouça meu fluxo. Derreta-se por mim.

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