Não sou eu

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Essa pele fria, gélida e calada, que finge estar forte o suficiente para não conseguir sentir nada vindo de você, não sou eu. Não. Eu fui os sonhos que construí e as pontes que criei ao seu redor e as vezes que morei entre os centímetros quadrados dos teus braços. Esse ser silencioso (ou silenciado) que te olha fixamente, fingindo não te conhecer, não saber das linhas que ligam seu tornozelo até seus pensamentos, não sou eu. Não, eu ainda estou respirando. Eu sou aquela pessoa que te olhou no fundo dos olhos em dias mais frios e conseguiu entender seus pensamentos mais profundos, não ditos. Esse ser indiferente com os oceanos que te compõe ou que não vibra ao saber das tuas conquistas, não faz parte de mim. Não, eu tenho fibras sensíveis habitando meu corpo, ainda. Essa versão eu criei depois que me vi só, catando cacos no meio da estrada para conseguir me manter em pé de alguma forma. Estas vestes negras que eu vesti, essa versão crua que eu assumi, essa nuvem turva que cobre meus olhos, isso não faz parte da minha verdade. Não. Isso tudo eu adotei para conseguir me sentir um pouco notável no meio de tantas versões novas de uma história antiga.

Isso tudo aconteceu quando eu descobri que mesmo quando eu não quero falar de você, eu estou falando sobre você. Porque eu não tenho certeza se escolhi realmente a estrada que a gente já tentou seguir e fiquei só com a parte boa de ouvir você divagar entre uma taça de vinho e outra. Porque você tem cheiro de madeira recém molhada e daí eu comecei a querer mais vezes que chovesse por aí para poder tropeçar no seu cheiro em algum lugar. Porque você não entende essa prática de amor comum e básica, que é tirar um pedaço de si para alimentar o outro, então eu decidi me mutilar em silêncio para que um dia você consiga se sentir mais forte, e então, me veja nua na sua porta. Mas até mesmo essa versão consciente e demasiada realista, não tenho certeza se sou eu. Você logo viu que eu sou mais raiz do que folhagem, viu que meu lugar sempre foi na esquina das dúvidas. Ninguém suporta tanta felicidade assim, de graça. Eu precisei enfiar as minhas mãos no fundo do seu intestino e torcer, para que algo de amargo saísse de dentro da sua boca. Eu precisei morder o seu dedo indicador enquanto você me amava para te explicar que o amor também dói. Lá no fundo da sua garganta, ainda tem um pouco de mim gritando para que você acorde e entenda que meus músculos precisam se sentir esticados e distendidos, para que só assim eu perceba que estou viva.

Mas quem consegue amar assim, afinal?- você me perguntava.

Ninguém. Todo mundo. Eu. Não sei. Quer tentar de verdade? Eu poderia te responder essa pergunta com sinceridade ou com meus eufemismos, você saberia onde as mentiras estariam localizadas. Eu poderia te dizer que é minha maneira egoísta de te iludir e que eu finjo que te amo demais para te amar de menos, ou vice-versa, mas ainda assim você saberia exatamente o que é verdade. Já consigo sentir a sua mão acariciando a pele das minhas costas pálidas. Eu poderia te fazer uma lista dizendo quem eu sou, mas você a mudaria e deixaria exposto, bem na minha cara o óbvio: Nem mesmo eu sei. E não me interessa se quando eu me jogo de novo e de novo dos mesmos penhascos conhecidos, a única coisa que eu penso é que eu gosto do sabor da sua pele na minha língua e do meu ego sendo alimentado pela sua vontade de mastigar cada centímetro do meu bom senso, só porque é divertido demais saber que estamos perdidos, o tempo todo, e tudo bem nos encontrarmos um no outro- despidos demais para ter medo. Eu poderia tentar esconder qualquer sede da minha parte no couro cabeludo da cabeça dos fantasmas que me rondam, mas você encontraria meus tesouros com o simples gesto de me encostar contra a parede imaginária da nossa bolha particular e eu já estaria aberta para te receber, conhecer mais um pouco do seu interior conturbadamente arrumado e não querer estar em nenhum outro lugar.

Eu poderia dizer tudo. E nada. E não tentar mais estar aqui, pesada e com o organismo inteiro falando abertamente que eu costumo conversar intimamente com as neuroses todas andando no intervalo dos anti depressivos, mas isso também você saberia. Então, pega a sua bagagem organizada, metódica e cara, coloca ao lado da minha insanidade saudável e vamos embora. Vamos assumir quem realmente somos e deixar que a vida nos aceite. Nos aceite, se ela for capaz.

 

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