Da cadeia e isolamento para as cadeiras universitárias

Erica e Felipe são moradores da região da Vila Morro da Esperança, e carregam consigo histórias impressionantes.

“Nunca foi fácil escutar as pessoas dizendo que tinham mãe e pai”, conta a garota com as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto seus olhos viram para o outro canto da sala, onde está sua avó, dona Regina, que pelo olhar a acolhe e lhe dá força para seguir com a frase. “Se literalmente não fosse eles (os avós) eu já estava morta”, relata a jovem que foi abandonada pelos pais quando tinha apenas quinze dias de vida.

Erica Regina nasceu no dia 15 de agosto de 1994. A garota esconde atrás da timidez uma história de luta. Desde muito cedo enfrentou diversas dificuldades. Moradora da Vila Morro da Esperança, em Curitiba.

Com um olhar manso e seguro, a jovem ancorou suas dores nos estudos e dele tem colhido grandes resultados. Criada pelos avós maternos, a garota sempre tirou boas notas na escola. No contra turno variava entre ficar na biblioteca estudando ou fazer cursos gratuitos oferecidos pela Prefeitura de Curitiba. Com o conteúdo colhido no ensino público Erica focou no Enem e com a nota conseguiu uma bolsa de 50% para estudar Processos Operacionais, na Faculdade Unicesumar, onde hoje cursa o primeiro período do curso.

A solidão sempre esteve presente na vida da jovem que não coleciona muitos amigos, assim como não caminha pela trilha de muitos outros adolescentes do bairro.  Na região, Erica, a avó e outros três vizinhos ouvidos pela reportagem não conhecem nenhum outro morador que esteja na universidade.

Essa situação vai contra o que as estatísticas apontavam em 2015. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no sul do Brasil 72,2% dos jovens cursam ensino superior. Essa realidade ainda não chegou à Vila Morro da Esperança.

Casos como o de Erica ainda são exceção, assim como o do Felipe Valença de Meira (25) mais conhecido como Birds. Morando a mais ou menos quinze minutos de caminhada da casa de Erica, Felipe precisou ter muita força para superar a si mesmo. Aos 12 anos aprendeu a fumar, aos 13 a ingerir bebidas alcóolicas, desse ponto paras drogas ilícitas foi rápido.

Jovem, sem estrutura psicológica necessária, foi  preso aos 21 por assalto a mão armada. De dentro da cadeia o sofrimento castigou o corpo e reformulou a sua mente. Ao se ver nessa situação e a dor da mãe, que nunca saiu do seu lado, Birds resolveu fazer valer o apelido e, quando saiu de trás das grades, voou – e tem voado o mais alto que pode.

Estudando em casa conseguiu uma bolsa num cursinho pré-vestibular. Tentou uma, duas e foi somente na terceira vez que realizou um feito que para muitos é considerado impossível para alguém com o histórico de Felipe. Ele foi aprovado para o curso de Turismo na Universidade Federal do Paraná.

ERICA E FELIPE TIVERAM QUE SE ESFORÇAR DEZ VEZES MAIS QUE JOVENS DE CLASSE MÉDIA

Segundo o sociólogo Luiz Domingos Costa, o jovem da periferia encontra diversos fatores que dificultam seu ingresso no ensino superior. Além do ensino muito inferior aos jovens de classe média, o ambiente social vivido por um jovem da periferia também dificulta que ele sobreviva com bom desempenho na escola. Esse jovem  encontra dificuldades econômicas de comprar uniforme, o transforme, alimentação, material escolar, dentre outros. Por mais que o aluno estude em escola pública, seja ela escola básica, fundamental e média, esses custos relacionados ao ensino pesam, o que leva muitos dos jovens a terem que trabalhar no contra turno escolar. “O vestibular acaba sendo o último obstáculo, e um dos mais severos porque o nível é muito elevado, e se você não teve uma trajetória escolar linear e uma família que te ajude e te discipline a estudar aquilo e te banque as melhores escolas, fica bastante difícil, fica bastante improvável que a pessoa supere esses obstáculos”, revela Domingos.

Referente ao caso da Erica e do Felipe, Domingos afirma que esses casos são exceções que confirmam a regra. Pois ambos tiveram que fazer um esforço sobre-humano para conseguir vencer os obstáculos e ingressar em uma universidade. “[Esses jovens] Precisam se empenhar dez vezes mais que jovens da classe média se empenham para passar em um curso de Medicina. Um esforço desse não deve ser esperado de ninguém, isso não é comum para o jovem” enfatiza Domingos.
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