O caos e o nada

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Você foi o sol.

Com toda aquela luz e todo aquele calor e a atração que você causava por onde passava e o astro rei que você se tornava em qualquer roda de conversa, olha, você foi sem sombra de dúvidas o sol mais gigantesco que eu já vi. O mais repentino sol que devolve esperança aos desabrigados, promete que haverá boa safra nos campos e nos faz abrir cortinas e janelas e nos cega. Nos cega completamente e insanamente e nos tapa também os ouvidos e a boca e nos tira a voz e as escolhas e o ar. Eu me ceguei por você. Orbitei ao seu redor. Fui recomeço para todos os teus finais. Saída para todas as suas fugas. As minhas horas dependeram da sua natureza instável. Eu fui todos os eufemismos possíveis e todas as metáforas que você possa fazer e possa imaginar nos próximos cinquenta anos.

Você foi o sangue.

Pulsando nas minhas veias, saindo pelas lacunas da pele e fazendo adoecer até o mais íntimo que eu carrego na sua mínima falta. Eu entreguei tudo, eu fui inteira, eu não pedi troco e nem comprovante. Os meus amigos viam na minha pele as marcas que você deixava. As olheiras de insônia, os cortes nas mãos, os fios de cabelo tão perdidos quanto eu e eu mentia. Eu chovia. Era temporal. Oásis de coragem. Era secura, porque você também era minha água, minha saliva e conseguia estar presente nos meus poros. Eu fui te seguindo na tentativa de te tocar. Desidratei. Se eu me virasse um pouco mais, um tanto de pele cairia no meio da rua e deixaria exposta a fila de fraquezas e incertezas que eu carrego por baixo de camadas e camadas de ironia.

Você foi cura.

Chegou até o mais íntimo dos meus ossos e me deu vitaminas. Me alimentou. Foi indicado pelos médicos, pelas benzedeiras, pelos conselheiros de plantão, todo mundo sabia que você era sol e que sol é o que rege a vida e a minha vida era sem sombra de dúvidas orientada por você, você que também era sangue e caminho e danos eminentes, mas se solidificou nos meus calos e se eternizou nas minhas cicatrizes e virou tatuagem na pele. Os meus calendários todos estavam ao seu dispor, as horas e semanas, qualquer momento, qualquer lugar, porque eu quis. Porque eu acreditei em cada verdade, em cada mentira e em cada hipótese.

Você, sol.

Você, sangue.

Eu, silêncio. Caminho. Danos eminentes.

Agora, enquanto a minha estrada se estende atrás das minhas costas, enquanto eu olho os cruzamentos e não sei para onde ir, cansada demais para reagir. Agora, enquanto eu não consigo pronunciar as causas e as escusas, enquanto a vida é pó e sopro- agora você é só um pedaço morto enquanto eu fico parada, trocando o peso entre os pés. Um peso que eu não meço mais, que me acompanha como uma parte indissolúvel de quem eu sou e que é parte da identidade incerta que eu penso possuir. Lá, onde ficam as memórias antigas de quem um dia eu fui- e eu fui um tanto você– onde as casas e os cortes estão todos expostos demais para serem ignorados, nesse lugar onde você não vai, você não olha e você não toca e que é o que sobra depois do caos, eu só consigo pensar que nesse exato momento eu sou tudo aquilo que me destruiu um dia.

Eu ainda sou tudo isso, afinal, e você não é mais nada.

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