O reino de Renato Russo

Um texto de Dabliu Rilke Junior

Renato Russo vive. Com uma das frases mais usuais e batidas que muito se ouve e se lê nas dezenas e dezenas de tributos ao maior nome do rock nacional que o Brasil já viu, é como traduzo minha visita à exposição Renato Russo do Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo. Os números impressionam: segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o Legião Urbana vendeu mais de 25 milhões de álbuns, sendo o segundo grupo musical da gravadora EMI que mais vendeu discos de catálogo em todo mundo. Um sucesso como nunca se viu, e provavelmente não se verá novamente no Brasil, já que uma banda de rock uniu gerações e compunha canções que podiam agradar tanto à juventude sedenta de palavras autênticas e honestas quanto à geração mais velha em busca de poesia e verdade. Renato Russo unia autenticidade, honestidade, poesia e verdade em uma coisa só.

Da história da banda, vinda de Brasília, seu estrondoso sucesso, seus discos, uns mais populares que os outros, às polêmicas, confusões em shows, até a fatídica morte do Renato em 1996, tudo é quase de conhecimento geral, tão entranhada na história da música brasileira a história da Legião está, mas não é isso o que a exposição do MIS nos traz. O fato mais impressionante é o de que ainda falamos dele com brilho nos olhos, e quanto mais o tempo passa, mais descobrimos uma mina de diamantes ao redor do que ficou ao seu respeito, tamanho seu cuidado em organizar seu legado, tanto pelo seu filho e herdeiro (Giuliano Manfredini, idealizador da exposição) quanto pela sabida importância da sua própria obra. E não fez por menos: conhecer o reino de Renato Russo nos deixa encantados.

É a redação da escola, já com caligrafia perfeccionista e graciosos erros de ortografia de quem está começando a se arriscar a escrever com uma linguagem própria. São os desenhos coloridos à giz de cera, que com o passar dos anos vão ficando melhores, mas a pureza do menino Junior continua ali. Seus cadernos de escola, cheios de desenhos e referências, que para quem conhece sua discografia com propriedade, são como completar um quebra-cabeças. É possível reconhecer o Renato das canções, porque a honestidade sempre esteve presente. Renato Russo sempre foi um crítico de si mesmo e isso fica claro nas páginas dos seus diários, em que ele analisa sua própria banda, seus próprios álbuns, e reflete com clareza e serenidade sobre o próximo passo.

A exposição tem dois andares e é a maior exposição que o MIS já construiu, contando com mais de mil itens como objetos pessoais, peças de vestuário, além de fotografias, manuscritos, instrumentos musicais, documentos escolares, desenhos, cartas de fãs e prêmios. Algumas letras de músicas, muitas manuscritas, possuem anotações do Renato, como por exemplo, as letras do último álbum “A Tempestade”. Nesse álbum a voz do Renato já soa bastante debilitada por conta do avançado estágio da AIDS, e em uma das letras ele deixou anotado “refazer as vozes?”. Ele nunca as refez. Para aqueles que conhecem menos a história do artista, uma linha cronológica nas paredes, em português, inglês e espanhol, situa o público na vida e obra do Renato.

Mas para mim, o último andar foi o mais marcante de todos. Um corredor com os objetos pessoais como os famosos óculos, anotações, diários pessoais dos últimos anos, fotos de família, que em conjunto com a música ambiente fizeram as lágrimas aquecerem meu rosto como se eu estivesse ali visitando um amigo que me acompanha por tantos anos em minha solidão. Uma profunda saudade de alguém que nunca me conheceu, mas que sempre me acolheu. O último diário exposto mostra a última página escrita pelo Renato antes de morrer, numa escrita trêmula, em inglês, falando de como se sentia, os procedimentos médicos que estavam querendo fazer, o que ele gostaria de fazer nos últimos dias, e o resto da página totalmente em branco: o fim.

Mais alguns passos, e conhecemos o quarto do artista, impossível de ser associado com um rock star: uma cama de solteiro, uma estante com fotografias, livros e imagens de anjos, uma foto de si mesmo no auge da fama na parede, e um criado mudo com a foto de seu filho Giuliano. Só. Renato Russo era poeta, cantor, um artista sem igual. Um gênio. Como o próprio Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião, disse em seu livro “Memórias de um Legionário”, citando uma canção de Gilberto Gil, “Aparece a cada cem anos um/ E a cada vinte e cinco um aprendiz”. Renato era também como nós. Talvez seja esse o motivo pelo qual ele ainda consiga se comunicar com nossos corações mesmo depois de 21 anos de sua morte. É, clichês à parte, Renato Russo vive sim.


Esse texto foi escrito por Dabliu Rilke Junior, escritor, cantor, compositor e Doutor em Economia. Curta a página do artista para acompanhar seu trabalho que é sempre repleto de poesia.

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