Comer é vida

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Eu vi que algo de errado não estava certo, quando a comida se tornou remédio de todos os males da vida e motivo para festejar qualquer conquista. E eu não estou falando de um belo prato de salada com um filézinho grelhado acompanhado de um suquinho de abacaxi com hortelã, não. É comida da boa, com níveis calóricos de respeito e altas horas da madrugada, em grande quantidade. No começo, achei que “pelo menos eu não estou usando drogas”, mas aos poucos fui vendo a força que aquilo exercia em mim. Já não era mais um caso de fome, era mais. A tão famigerada gula estava na minha vida e eu vinha negando, dizendo que era apenas um prazer pela culinária. Mas daí, a fatia do pudim aumentava quando meu chefe discutia comigo, o pedido no japonês era o triplo do comum quando os boletos atrasavam, a quantidade de bacon no x-tudo duplicava quando o coração partia. As minhas emoções faziam meu prato e o meu prato resultava nas minhas emoções. Mas, como eu disse antes: Pelo menos não eram drogas.

Então, sem pedir ajuda médica, decidi que iria controlar aquilo de alguma maneira só por precaução. Comecei diminuindo o carboidrato, fui evitando os doces e aderindo aos verdes, frutas. O básico de quem não quer morrer aos 40 por causa de um infarto. Exercícios físicos, a gente começa e recomeça todo mês, mas não deixa de tentar. Só que daí, a vida é mesmo uma caixinha de surpresas, e eu descobri que distúrbios alimentares são um ciclo sem fim. A gente costuma pensar que esse tipo de coisas se resume em comer absurdamente, o tempo todo, ou simplesmente não comer. Mas a versão mista da coisa acontece sem que você perceba e quando vê, tem mais um item na lista de insanidades. Quando eu enfiava o pé na jaca com gosto, decidia que no dia seguinte me puniria com a atitude mais idiota possível: Não comendo. Burlava as regras da casa e dizia que almoçaria mais tarde ou fora. Mentia, na cara dura, que já tinha comido, “você não viu?” O resultado era óbvio: Engordei, emagreci, virei a boa e velha sanfona. Consegui ficar até dois dias e meio na água e café, até que num determinado momento eu já não consegui continuar e comi, exageradamente, compulsivamente, como se não houvesse amanhã. Chorei enquanto mastigava.

Os artifícios para emagrecer a qualquer custo começaram a brotar diante dos meus olhos feito chuva em época de seca- era minha salvação. Cintas, shakes, cremes, remédios, tratamentos. A gente pira, pira mesmo e sem dó. Vai investindo e fugindo das terapias, correndo dos bons conselhos, dos grupos de apoio. Afinal, eu não sou drogada, eu só gosto de comer. Não é um vício, é só um descontrole que eu vou dominar com o tempo. Que ilusão, doce e salgada e gordurosa ilusão. A coisa só foi aumentando e a culpa virava a voz das pessoas falando do meu sobrepeso, do quadril que estava maior, que eu deveria me cuidar melhor. Ninguém entendia, ninguém entende. Não percebem que a gente está se afogando em açúcar e gordura saturada, pra não se afogar dentro dos desesperos da alma, nas feridas do dia-a-dia e do passado. O álcool, o sexo, os narcóticos, as tarjas pretas, os flagelos, tudo isso entra na sua vida de uma maneira silenciosa e com aparência amigável- no meu caso veio em temperos e bons refogados. Comer é bom? É maravilhoso! Indico sem sombra de dúvidas. Mas o problema é quando isso se torna maior do que você. Catalizador e balança de quem você é, do que você anseia para sua vida. Comer é incrível, mas o equilíbrio é divino. Acredite.

Até que um dia, felizmente, isso chegou no consultório médico. “Qual a sua relação com a comida?”, disse o doutor me olhando sob a armação dos óculos. Eu congelei e me vi novamente tendo que assumir uma fraqueza da qual eu não fazia ideia de que era um interruptor, um clique, era mesmo um problema e falava muito sobre quem eu estava sendo comigo mesma. A vida pode não ter sido fácil comigo muitas vezes, mas a minha maior algoz era eu naquele momento. Eu estava usando a comida como uma forma de penalidade, como uma violência silenciosa e aprovada pela sociedade. Eu queria me ferir, me causar danos, mas sem sangue e pulsos cortados. É absurdo, eu sei, mas a gente pode chegar nesse ponto sem se dar conta, infelizmente. Perdemos o respeito por si, porque ouvimos quem não deveria, demos valor ao que era irrelevante, porque erramos, porque nos traumatizamos. A gente perde a linha por muita coisa e por nada, ninguém é igual, ninguém reage da mesma forma e ninguém se cura com o mesmo remédio. Assim, eu decidi que não iria me violentar mais dessa maneira e tomei uma decisão.

Comecei aos poucos, colocando horários para comer e determinando metas. Obviamente, os anti depressivos ajudaram muito e fazem sua parte, mas a maior luta é dentro de mim. Os problemas não acabaram, e a gente sabe que nunca acabarão, mas a minha reação perante eles deveria ser diferente. Nem tudo poderia ser resolvido no drive-thru às duas da madrugada para sempre. Aderi aos métodos de meditação, livros e testemunhos de pessoas me ajudaram a abrir os horizontes e perceber que isso é mais comum do que se imagina- não estamos sozinhos nessa luta. A gente vai buscando uma saída e vai se encontrado, se perdoando. A terapia é a parte mais difícil para mim, o auto conflito e avaliação parecem monstros terríveis que irão pegar o seu pé na madrugada- e tem noites que elas pegam mesmo. Mas a gente vai indo, um passo de cada vez, um desafio atrás do outro e vai construindo pontes até o outro lado dessa jornada, onde acima de qualquer coisa a gente se ama. Se aceita e principalmente se respeita. Respeita profundamente, a ponto de conseguir superar até uma pizza de quatro queijos com rúcula, porque sabe que a vida é bem mais do que isso e que melhores dias- e melhores cardápios- virão.

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