Um minuto de silêncio por nós dois

tumblr_static_tumblr_static__640

A tua solidão me trouxe para mais perto do seu peito e posteriormente para o seu travesseiro e eu sempre soube disso. Nunca temi ser a companhia das tuas neuroses e ouvinte dos erros que lhe rondam, das insônias que te machucam noite adentro. A tua sonoridade, os teus ruídos de mal funcionamento, silêncios e cicatrizes, me fizeram sentir em casa quando pude tocar uma parcela de tudo isso. Quando você me pediu para não ir embora, achei enfim ter encontrado um canto para me despir- inteira, por dentro e por fora, sem ressalvas e máscaras. Fiquei. Nunca mais pensei em sair. Eu vi inocências onde só havia medo e pó. Quis te pegar no colo, colocar numa posição confortável e não permitir que nenhum infortúnio te pesasse mais ainda os ombros. Abri as portas, fiz café, arrumei o banheiro e ajeitei os cabelos. Li mais, procurei entender as tuas teorias, as suas teses, eu arrumei novas línguas para te definir. Eu me deixei levar, dizendo que sabia o que estava fazendo e claramente não tendo controle algum sobre nada disso.

Eu te amei, porque você fala da morte como se tivesse morrido mil vezes e traga seu cigarro como se fosse morrer de novo, depois dessa última chance de sentir . Te amei, porque todos te olham quando seu pé cruza as soleiras de portas e te julgam silenciosamente porque você usa as camisas que gosta e não as que lhes agradam. É por isso que falam sobre a sua vida como se estivessem contando uma lenda e é por saber a versão real de tudo isso que eu pensei que você veria verdade em mim e ficaria, e me amaria também. E me entenderia. E eu não precisaria cobrar nada, porque seria uma verdade tão visível que seus olhos não conseguiriam fingir que não estavam vendo. E eu poderia deixar as portas abertas e janelas escancaradas, porque assim como eu, você não teria vontade de voar. Eu pensei, sinceramente nisso, infelizmente.

(Me dê um minuto de silêncio para conseguir engolir a realidade agora…)

E agora, eu só sinto raiva, porque a minha lista de bons filmes não te saciou e nem meus bons livros te fizeram fixar os olhos em mim. Raiva, porque eu venho te escolhendo dia após dia para ficar e a sua curiosidade no mundo afora te leva para mais longe, intocável e seco para os lábios. Raiva, porque as suas regras só são impostas e válidas comigo, enquanto outrem pode te acionar às onze da noite, numa noite quente qualquer e tirar seu foco do meu sentimento infantil, ridículo, calejado e sem restrições, que você sequer leva à sério. Raiva. Milhões de vezes raiva, por não conseguir ser suficiente para quem eu pensei ser critério de decisões para tudo, tudo no meu mundo particular que você parece não mais reconhecer.  Raiva porque eu só consigo ver danos. Eu não sei sequer para onde endereçar essa raiva, porque não tenho um nome, um número de RG ou um endereço para culpar e que não seja seu, que não me leve até você. Quando foi que essa pessoa aí, essa mesmo, que está tentando te provar por a+b que ela é especial e única, viu os teus olhos cor de folhas secas brilharem ao ver alguns versos rabiscados por tua causa? Quando foi que o teu cabelo que desliza no vão dos meus dedos a conquistou? Eu não sei. Eu não tenho escapatória desse looping de sentimentos amargurados, de sensações que eu já senti antes e que parece que você esqueceu de ter feito parte do caminho até aqui. Eu não consegui falar desde que te deixei em casa, eu não consegui engolir essa bola de mágoa que está presa na garganta e até os vizinhos conseguem ver que algo aqui dentro quebrou, estilhaçou e está cortando, sangrando e só o meu silêncio faz som nas paredes. Nesse momento, nesse exato instante, eu odeio cada parte de você por me fazer repetir um cenário que eu custei tanto para esquecer e essa dor te causar risos, ser piada aos teus olhos, ter um sentimento tão gigantesco e tão honesto, ser feito de peso de papel das tuas vaidades.

Por fim, eu também sinto pena- de mim e de você– por saber que eu não irei levantar nenhuma bandeira. Não irei travar nenhuma guerra. Não irei provar nada para ninguém. Eu só pegarei minha bagagem, pagarei minhas dívidas e irei rumo ao que eu tiver que encarar daqui para frente. É triste saber que você me perdeu, afinal. É triste saber que enfim você conseguiu o que tanto duvidava acontecer: Me ver sair da sua vida sem vontade de lembrar o caminho de volta.

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s