Para te fazer ficar

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Eu aprendi a organizar mesas de trabalho, porque você existe. E manusear abridores de vinho, porque você tem mãos lindas. E limpar os banheiros na espera de que você chegue a qualquer momento. E cortar carboidratos, porque, por mais que a gente não tenha muita esperança, não queremos morrer antes do cinquenta- podres e enormes. E viajar mais, porque a nossa cidade não tem assunto pra tanta mesa de bar e cerveja que a gente consome. E saborear uvas diferentes, porque os vinhos combinam com os ambientes que nos confortam. E ler livros que eu tenho vergonha de levar na bolsa, porque você precisa de alguém que fale com você sobre assuntos que coram a sua face e derrubam um pouco o seu queixo. E não precisar mais preencher a minha vida com um monte de gente vazia, porque você é tão completo que não precisa de mim. E não me sentir incapaz, porque se eu consigo muitas vezes te tirar as palavras, eu posso mesmo tentar ser maior do que aquela mulher que cresceu desconfiando de tudo. E gostar da sua mãe, porque você deve tudo à ela. E adorar o seu pai, porque ainda que você não concorde, ele é uma comédia. E gostar dos seus ternos, porque eles te deixam mais mundano- por incrível que pareça. E querer te levar para a beira da praia, porque você precisa de um pouco de silêncio e sol.

Eu acho que talvez isso não soe como um pedido de desculpas ou tampouco seja visto como uma declaração de algum sentimento que a gente vai fingir que não sabe se é amor ou só um pouco de apego, mas eu sempre tentei evitar o ridículo- aquela parte onde eu faço alguma rima com o seu nome e coloco suas qualidades num acróstico, por exemplo. Confesso (ainda que sabendo que vovó desaprovaria esse comportamento narcisista), que me acho muito melhor do que qualquer pessoa que acha que te conhece de verdade. E detesto quem se ilude pensando que poderá algum dia mudar a sua verdade. Eu aprendi a aceitar as fases da lua e dos seres humanos, porque você entende o motivo de tudo isso. E detesto a ideia de que alguém possa tocar esse ambiente tão nosso e tirar seu foco das minhas vaidades, do meu desprezo pelas tentativas universais de me prenderem em algum amor mais limpo e da minha aversão por gente sem arrependimentos e que te oferece um café depois das 18h, te fazendo perder o sono inutilmente. Tudo isso acontece dentro de mim, porque, como diria alguém: Você resgata as minhas essências.

Eu te destruo como um símbolo freudiano, pra poder te construir de novo num canto qualquer do meu afeto, sem escaras ou manchas. Eu te perdoo entre um pecado e outro, pra poder te amar mais um tempo sem que pareça que chegamos no ponto temido onde você me faz sangrar e eu não sei mais como estancar. A minha terapeuta que te detesta, não me verá tão cedo, porque eu comecei a detestá-la quando percebi que ela não consegue entender que mesmo quando você me danifica, você me constrói. É terrível pensar que quase ninguém entenderia a nossa teoria de que para algo ser sólido, ele precisa antes passar pelo caos, afinal, foram tantas guerras travadas- dentro ou fora de nós. Contudo, os meus demônios parecem ser vizinhos dos seus. E meus vícios parecem ter nascido conosco. E daí eu decido que irei me arrepender, porque você disse ter se arrependido de tudo que vivemos e eu não posso confessar que faria tudo de novo e mais uma vez, se fosse pra te ouvir dizer que eu sou louca, mas você prefere ficar por perto.

Então, eu começo a concluir- sem chegar a ponto algum- que por melhor que sejam as nossas visões sobre a vida e por mais que eu sinta que você reflete a minha versão torta e transeunte e tão sem donos e tão sem amarras, tem dias que talvez eu não consiga suportar o peso de ter que te ver partir, sem deixar bilhetes dizendo se volta- afinal, um dia eu teria que pagar pelas minhas partidas sem avisos também. E ainda que isso não soe como um pedido de desculpas ou tampouco seja visto como uma declaração de algum sentimento que a gente vai fingir que não sabe se é amor ou só um pouco de apego, eu queria que você tentasse entender que o modo como você não sabe lidar direito com tudo que te ama sem disfarces, também te faz entrar na classificação de loucos, como eu. E que mesmo não sabendo me defender e expressar quando é o teu silêncio do outro lado da linha, da mesa e do mundo, no final do dia, ainda existem porcentagens grandes dentro de mim, me dizendo que a gente se acerta nesses desalinhos. Afinal, se não fosse você, eu já teria morrido de tédio lendo Saint-Exupéry, achando fielmente que em algum momento ele teve razão.

 

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