O caminho de volta

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Eu sento diante de uma mesa ao lado de fora da cafeteria onde vimos o mundo inteiro se resumir na frase: “Eu espero que você consiga encontrar o que tanto busca”, e  acho que ainda consigo me lembrar de como os seus olhos ficavam apertados quando eu começava a explicar as razões de sempre me sentir desconexa, de você me ferir mesmo quando tentava não fazê-lo. Lembro de como você precisava colocar o cabelo para trás quando não conseguia se fazer entender. Lembro de como nós éramos apenas os opostos de tudo, tentando se encaixar. Lembro do pedido à moça sorridente que ainda serve as mesas. Será que ela ainda lembra de mim? De mim quando era com você? De nós? Se é que houve esse “nós” em algum momento. Seus beijos ainda parecem horríveis e seu toque pesado, seus desastres interiores expressados nas suas ações físicas. A cafeteria não mudou, nem mesmo as cadeiras e o cheiro de canela que sobe do balcão ainda chama atenção. Mas eu, com certeza não sou a mesma pessoa, não guardo os mesmos detalhes e não consigo sequer me recordar de como eu parecia nos porta retratos da vida. É, talvez a moça não consiga lembrar de mim, porque nunca me conheceu. Não é culpa dela. Eu também não te reconheceria na multidão.

Em minhas mãos carrego cicatrizes de quando tentei, inutilmente, te segurar para não cair no abismo que é essa vontade faminta que carregamos dentro do peito numa ilusão de que um dia vamos saciar. São essas marcas que me provam que em algum momento eu fui, sim, aquela versão tão mais clara e simples e não fumante e não adepta de auto flagelo emocional para me punir pela sua existência. Então, agora, nesse instante, me explica uma coisa simples: Como você consegue simplesmente traçar o caminho de volta para a minha vida, sem teus ombros pesarem? Sem as tuas mentiras arrancarem um pedaço do seu estômago? Porque, quando a sua voz do outro lado da linha só conseguia dizer um “desculpa” bem mal formulado, eu só senti aquele formigamento de mágoa subir pelos meus pulsos e novamente eu estava sendo submersa no limbo emocional que eu te joguei. Me fala, como você faz pra conseguir chegar perto, sem nem mesmo esticar os braços? Como você consegue dizer que eu ainda faço parte de você, se quando você saiu pela última vez, me arrancou membros e órgãos e eu sou essa versão reconstituída, sem garantias de funcionamento ideal? Eu não consigo entender, eu não consigo conceber a ideia de que passou pela sua cabeça que em algum instante eu conseguiria te receber para tomar um café, falar de canela e erros que a gente comete quando compra um novo celular e me colocar na linha de frente das tuas lutas por redenção.

A naturalidade de como você erra e volta com os olhos cheios de esperança, me desanima. Eu penso que nunca conseguirei ser como você e me anestesiar pelos danos causados e sofridos, como quem lida com uma planilha cotidiana de funções casuais e apenas encolhe os ombros enquanto mostra as mãos limpas de culpa. Eu cheguei ao ponto de crer que você encara a vida alheia como uma experiência laboratorial. Você observa, anota, mas nunca faz parte integralmente de nada, de ninguém e nem de si mesmo, porque sabe muito bem onde se esconder. Então, me explica uma coisa simples: Você se reconhece no espelho ou aceitou uma versão qualquer para conseguir levar os dias? Me explica, como você consegue vestir essa roupa justa de homem sábio, enquanto os teus crimes sujam o caminho atrás dos seus pés? Será que você se blindou tanto aos sentimentos e se cegou tanto com as suas verdades conservadas à vácuo, que agora consegue volta por uma estrada cheia de cacos sem sequer se cortar? A sua facilidade em se justificar usando inocências que não existem, sequer te sangra. Sequer mostra alguma rachadura.

Agora, olhando o passado, agora, vendo com clareza, agora, com os olhos menos inchados, com a razão mais equilibrada, me sinto como uma espectadora. Eu só consigo sentir pena de nós, tento me avisar que vai ser mais difícil do que o planejado e que NÃO, eu não saberei lidar com nada disso por muito tempo. Por muitas vidas. Por muitos ciclos que cruzam a nossa história e a gente acredita ser parte de um plano maior para nós. Se é que houve esse “nós” em algum momento. Eu repito as cenas, eu ainda consigo lembrar as emoções, mas não sou capaz de te amar nem mesmo nos momentos em que você merecia. Nem mesmo quando a verdade era evidente. Nem mesmo quando a gente achava uma posição onde conseguia se equilibrar nas ausências. Nem mesmo quando você se deixava ver por inteiro. Nem mesmo porque eu parecia ter nascido para fazer isso. Porque agora, é só o cheiro de canela subindo de algum lugar. É só a falta de vontade de ter que encarar o suicídio que é te ter novamente na lista de contatos. É só a paz interior de te mandar embora  e a minha vontade sincera de que você consiga encontrar o que tanto busca. E de preferência, longe de mim.

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