Sentir não faz sentido

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Até o silêncio me cuida, eu me agarro nisso antes de afundar e depois eu já não vejo mais nada. Nessa água escura, sem som, eu só quero ser a unha que descasca a ferida- porque eu preciso ser alguma coisa. Tudo é preciso justificar: A lista de compras, os gastos no final do mês, a ausência na reunião de família, a escolha do próximo destino de fuga e o motivo de tudo virar um “você”. Tudo precisa estar minimamente justificado, parágrafo 2 em times new roman 12. A faca que gira dentro da pele e sangra toda vez que me perguntam quando irei parar de sentir tanto e com tanta intensidade e enfim parar de ser tanto eu pra ser o que querem de mim. Eu vejo a minha pele árida colar nos meus ossos e depois eu já estou mastigando algum órgão que parou- sente agora? Eu sou a arma apontada, o gatilho na mira. Eu incomodo, altero o ar. Eu respiro fundo, seguro um pouco para conseguir morrer depois, na esquina de um desespero qualquer e me reerguer sem os dentes da frente, fingindo não doer. E novamente, você.

Como você pode falar da morte com tanta intimidade?– eles perguntam.

Eu já amei tantas vezes e ainda me mantenho aqui, firme no que creio. Mentiras nos alimentam, você sabe, amar é também morrer um pouco todos os dias. Eu já me perdi tantas vezes que consigo fingir conforto aí, onde você finge ter chegado- às vezes morro de fome com tantas verdades. Eu já me achei tantas vezes, que consigo morrer na sua boca agora, sem medo. Inibiram meus sentimentos, porque sentir demais me afasta do Paraíso dos Frigidos- há dias que me sinto o próprio inferno. Gritos de socorro não são ouvidos atrás dos meus acenos educados e eu vesti um pijama ruim hoje porque até a minha blusa favorita você levou em meados de um dezembro antigo- nem isso me pertencia, afinal. Ansiedades se viram dentro da minha íris e descobri que sofro de refluxo quando penso demais no que existe dentro da pele- eu preciso sair de mim, nem que seja em fluídos.

Agora, de onde eu olho as imagens salgadas do choro que eu não derrubei, das feridas que eu não sangrei, os cigarros que eu não fumei, eu pergunto: Até quando o teu silêncio me manterá segura, meu amor? Até quando iremos carregar esses fardos? O céu da tua boca anda vazio, assim como o meu? Forço a mandíbula e lembro de te ver acordar pela manhã, confuso e reclamando do frio e ter certeza de que se aquela fosse a minha última visão, eu morreria em paz. Estico um pouco meu braço e sinto que daqui eu poderia te acariciar os cabelos até a sua insônia perder a força. Por isso, se você não tiver muita coisa para fazer, muita gente para manter, muito assunto pra colocar em dia, por favor, me diz para ficar, mesmo fadigada e sendo essa tormenta, essa insensatez?

Namora comigo.

Namora, feito gente que não tem dívidas, nem refluxo, nem insônia, nem parentes chatos, nem nome sujo e tampouco se preocupa com depósito bancário. Namora comigo, feito aqueles filmes ruins de tarde de domingo, onde a mocinha fecha os olhos quando fala de amor e a gente tem vontade de jogar um pouco da nossa bile na cara dela pra mostrar a realidade da vida. Namora comigo como se a gente não estivesse preocupado com a possível proibição do omeprazol e nem tomasse corticoide como se fosse bala de morango- a gente precisa se tratar sobre isso. Namora comigo como se fosse possível. Como se não abalasse nenhum equilíbrio. Feito aquelas pessoas que a gente sempre viu de longe, se ignorando na mesa do bar porque o celular é mais interessante, e se sentia distante demais dessa realidade porque se interessa demais no outro. Anda comigo de mãos dadas da sala até a cozinha e vamos dividir a mesma colher de açúcar na hora do café. Namora comigo e me deseja, até que o teu desejo seja tanto que não haja espaço para pensar em ir embora e depois, me deita no teu peito, segura minha mão e adormece- ou não. Faz um beijo calar um pranto. Divide comigo tuas hipocondrias, neuroses, receitas e vamos falar sobre nossas terapias. Me faz habitar no teu silêncio que me cuida, me cura e me saúda todas todas as vezes em que eu não tenho palavras para explicar os meus rios que não chegam em oceano algum.

“Me abraça. Me beija. Me chama de ‘meu amor'”

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