Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

Eu não sei quantos dias eu estou boiando nesse limbo sentimental e quanto demora pra passar esse nó no meio do meu estômago e essa sensação de que eu fui tão baixo, que jamais conseguirei me reerguer depois de te implorar por um pouco de sentimento. Para mim, são meses lembrando dos teus olhos perdidos, enquanto eu acenava e me jogava do mais alto do prédio que é o gostar. São noites infinitas sem dormir e um engasgo, um travamento, uma fraqueza muscular para sentir qualquer coisa que não seja a sua falta. Eu acho que queria te ligar para, assim como você fez comigo, ouvir a sua voz e me acalmar um pouco e conseguir pelo menos caminhar menos curvada. Te avisar que agora eu estou me sentindo num cruzamento turbulento, todo mundo tentando me atropelar ou levar um pedaço meu e eu não sei pra onde ir, porque eu to com medo. Medo que qualquer caminho que eu escolha me tire você e eu tenha me despido demais. Medo de que, por mais que eu morra gritando e repetindo, você não consiga entender que eu te amo e que mesmo você não sabendo o que é o amor, eu ainda sinto. Porque, eu sei que tem gente que até tenta explicar e tem uns vídeos na internet que as minhas tias compartilham nos grupos de família, que dizem que o amor é tão mais simples do que eu sinto, mas olha, o amor que eu tenho é complexo e elaborado e eu não me envergonho disso. Ele é inteligente. Lê bons livros e toma bons vinhos e vibra até os ossos, porque se for pra sentir pouca coisa eu prefiro não sentir nada. Ele te conjuga e depois te julga e no final do dia ainda te escolhe pra ser a minha essência e repete, volta, começa de novo, se reconstrói e insiste. Eu não sei amar de maneira compacta, me perdoa. Me perdoa por amar tanto, todo tempo.

Me atende. Me perdoa.

Perdoa, porque esse texto era pra ser um elogio, mas agora ele só é triste e frio, feito uma pedra de mármore que eu engoli sem mastigar e agora preciso terminar de algum jeito. Agora ele só é um amontoado de perguntas sem nenhum tipo de resposta, do tipo mais cliché e mais ridículo. Eu não tenho um “eu te amo” pra me segurar, não tenho um gesto seu concreto pra me lembrar que mesmo você tendo outras bocas e outras coxas para se abrigar, eu ainda sou (ou fui) a sua casa. Uma casa onde você pode se despir, dormir e depois sair com a certeza de que sempre haverá lugar seu e para o seu não-amor, que é o que mais machuca. Eu só consigo pensar em como eu vou me vestir e me reencontrar, se no fundo eu sou um pouco de você e agora parece que eu estou espalhada no tapete da sala em infinitos cacos, feito uma taça quebrada e que está sem par. Eu fico nesse mantra sádico, “outras camas, outras coxas, outras bocas, outro alguém…” Agora, você não atende, “outras camas, outras coxas, outras bocas, outro alguém…” Onde você está? Quem segurará seu rosto entre as mãos pra te lembrar que você vale os riscos todos que te envolvem“Outras camas, outras coxas, outras bocas, outro alguém…”

Você vai lembrar que eu ainda estou aqui?

Tem alguém aí?

Haverá amor após o sinal?

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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