Só mais dez minutos

Não existe crise existencial mais conhecida que a crise dos dez minutos. Aquela que se alimenta das suas energias no tempo preenchido pela soneca entre o primeiro alarme de manhã e o segundo, terceiro, quarto. Você desperta mais cansado que quando foi deitar, aparentemente. Seu nome, seu trabalho, sua vida… tudo parece ter menos significado que tatuagem brega de adolescente, e a única coisa que a sua consciência espera de você é uma decisão muito simples: Levantar ou dormir mais dez minutos?! Quem nunca acordou e ficou sentado na beira da cama tentando recuperar a memória que atire a primeira pedra.

  • Aaaaaaaaaaaaaaaa! Todo dia é isso… Mal descanso e já é hora de levantar! Mas tudo bem, vou cochilar um pouco, afinal hoje não vou pra faculdade… embora deveria. Vou levantar daqui a pouco, tomar um café, um banho quente e… Ah não! Já faz dez dias que o chuveiro queimou, só funciona no morno… Amanhã eu conserto! Certeza!? Acho que hoje não vai dar tempo. Banho quente hoje não vai rolar, mas minha cama tá bem quentinha, então vou dormir mais dez minutos e depois decido o que fazer.

 É sempre assim: você fecha os olhos e quando pensa em dormir o alarme já tá tocando de novo… Dessa vez um pouco mais irritante e petulante que da primeira, mais inoportuno que vendedor de plano de telefonia móvel que te liga no horário mais inapropriado possível pra falar de operadora que você já conhece, já usou, já se decepcionou, já contestou fatura, já falou mal pro vizinho, pro amigo, pra mãe…

 Talvez a soneca seja a experiência humana realizada até hoje que mais se aproxima de viagem no tempo. Mesmo sem ter viajado no tempo sempre imaginei assim, você entra na máquina do tempo, fecha os olhos e quando abre se passaram dez mil anos… dez anos… dez minutos… tanto faz… como nos filmes de ficção científica. Só acho que viajar no tempo não tem como ser tão irritante quanto despertar de uma soneca, nem como vendedor de plano de telefonia móvel de operadora que você já conhece.

  • Terminar alarme ou Adiar alarme? Essa pergunta capciosa na tela do meu celular… Oh céus! Não estou em condições de decidir nada, principalmente algo tão relevante assim. Acho que vou optar por odiar o alarme mais uma vez… quero dizer, adiar. Provavelmente seria uma boa ideia exterminar o… ops! Terminar o alarme, mas não sei… tá muito frio aqui pra sair da cama essa hora, provavelmente uns dez graus Celsius, Centígrados, sei lá! imagina em Curitiba… E olha que o inverno ainda nem chegou. Acho que eu devia ter nascido como aquelas pessoas que não entendo; assim com coragem de ir pra academia de manhã. Dessa forma eu sairia da cama bem cedinho todos os dias sem hesitação igual a elas. Paguei o plano anual com dez por cento de desconto e acabei nem indo, se fui dez dias foi muito… Mas não foi culpa minha né?! Toda vez que eu me programo para ir surge algum imprevisto. Eu sei que pode parecer uma desculpinha, afinal já faz dez meses que tô falando que vou… Mas amanhã eu vou! Depois de arrumar o chuveiro. Certeza!? Acho que hoje não vai dar. Academia hoje não vai rolar, mas minha cama tá bem quentinha, então vou dormir mais dez minutos e depois decido o que fazer.

 Quem não gosta de uma sonequinha?! Você vira pra um lado, fecha os olhos, o alarme toca, você se esforça inutilmente para abrir os olhos, divaga ligeiramente sobre o sentido da existência, ou a falta dele, inicia uma jornada de autoconhecimento para descobrir em que dimensão você está e o mais importante; como foi parar ali, adia o alarme, se vira pro outro lado e fecha os olhos de novo.

 A cada cochilo o sentimento que te domina é diferente. O prazer, o desgosto, a raiva, a aceitação, a tristeza ou como na moda: a bad.

 Quem pode ver o tempo? O tempo é invisível! Deve ser por isso que você não se importa, afinal dez minutos a mais ou a menos não fazem diferença, não é mesmo?! Fazem.

 Naturalmente somos indiferentes ao que não vemos, não sentimos, não vivenciamos e o que não queremos ver, sentir, etc. Como naquele ditado: o que os olhos não veem o coração não sente, às vezes.

  • Dez pra lá, dez pra cá! Foi assim que eu aprendi. Só não sei se no sertão todos dormem como aqui… Como é mesmo aquela música? Não lembro! De qualquer forma já vou me levantar… o problema é que dormi dez minutos pra esse lado, agora tenho que dormir mais dez pro outro pra equilibrar. Não quero que o universo entre em desequilíbrio por minha causa, já pensou?! De dez em dez capaz que eu me levante apenas lá pelas dez e tantas, ou lá pelo dia dez. Por um instante acho que acordar só no dia dez seria ótimo… no bom sentido… salário na conta… e por aí vai. Bom, isso se o débito automático não acabar com tudo igual ao mês passado. Maldita hora fui aprovar aquele empréstimo consignado. Pior que nem lembro o que fiz com o dinheiro… só lembro que uma parte paguei o semestre daquele curso de inglês caríssimo que interrompi. De qualquer maneira não iria me servir de nada mesmo. Só teve aquele gringo que foi parar do outro lado da cidade por minha culpa… ou melhor… culpa dele que não soube dizer o nome do museu corretamente, como eu ia adivinhar?! Aliás, não entendo essa relação de amor e afeto que gringo tem com museu. Pensando bem teve também aquela promoção no trabalho que acabei perdendo por travar na sala com o chefe na hora do to be verb. É… já faz quase dez anos isso. Como o tempo passou depressa… E eu ainda pagando parcela. Ano que vem eu volto a estudar! Todo dia depois da academia. Certeza!? Acho que esse ano não vai dar. Inglês, esse ano não vai rolar, mas eu já falei como minha cama tá quentinha?

 As noites são como o mar, com ondas de pensamentos que permeiam o imaginário e te levam cada vez mais fundo. Algumas pessoas, sem saber nadar, se afogam lentamente dentro de si mesmas e, por isso, não conseguem dormir. Outras não conseguem acordar pelo mesmo motivo.

 Aos poucos a soneca matinal vai perdendo o sabor igual chiclete de meia hora e você vai recuperando a consciência. Nessa altura provavelmente você recorda seu nome, suas obrigações, seus anseios e angústias. Só não está seguro quanto ao seu papel no mundo.

 Você percebe que sua vida está muito diferente do que você planejou quando tinha dez anos de idade. Mas não é culpa sua né?! Afinal sempre surge algum imprevisto.

 Parece que todas as decisões tomadas até agora foram inconscientes. Mas agora você recuperou o controle e está determinado a fazer diferente.

 Por fim você chega à inevitável conclusão de que não foi uma boa ideia odiar tantas vezes o despertador… quero dizer, adiar. E que de dez em dez minutos, tem coisas que vocês está postergando a dez dias, dez meses, dez anos.

  • Acho que perdi completamente a noção da hora… Levantando agora não vou conseguir aproveitar o dia como gostaria. Tenho tanta coisa pra fazer que nem sei por onde começar. A hora passa voando e eu nem fiz nada. Os dias passam voando e eu nem fiz nada. Os anos passam correndo e eu… Bom, deixa pra lá! Parece que foi esses dias; minha mãe me acordava para me levar à escola. Como tudo foi dar tão errado? Na verdade acho que não me dei conta do tempo passando. Será que eu entrei em uma máquina do tempo como nos filmes de ficção científica?! Ou teria eu colocado a vida em modo soneca… Acho que perdi completamente a noção do tempo. Mas tanto faz… O que importa é que agora estou decidido. Amanhã vou levantar no primeiro alarme! Ou melhor, vou levantar antes do alarme. Assim que o sol nascer, na aurora, na alvorada. Certeza!? Hoje infelizmente não vai dar. Mas é isso! Só vou dormir mais dez minutos e decido o que fazer.

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