Me engula agora, se possível

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A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

Inteligentes demais para se deixar levar por algo tão primitivo, a gente diria na roda do bar. As garçonetes nos restaurantes invejam a nossa segurança em ser tão do outro e de si mesmo, sem perder a essência e sem precisar se moldar para caber na mesma vida. Mas você não. Você prefere dizer que eu fico ali fora, no escanteio, não menos especial, mas não tão fundamental assim. Eu também não. Eu prefiro dizer que a vida é boa como é, sem que a gente precise rotular algo tão leve e importante assim. Por isso eu decidi que vou embrulhar um pedaço dos meus ossos e enviar com laço de fita, cartão escrito à mão e um tanto de lágrima misturada com destilados baratos do botequim onde a gente já falou de amor e fé, de vida e medo, de nós- começo e fim.

Porque por mais que eu ande firme com os joelhos esticados, a verdade é que eu não sei te amar feito gente grande que organiza as contas entre “pagas e à vencer”, eu não consigo te olhar nos olhos sem querer morar dentro da sua garganta. Eu tenho vontade de pedir que você me engula agora, se possível. Me deixe viver uma parte da minha vida como se você realmente pudesse suportar o peso de me ter ao lado, respirando todo o oxigênio do planeta e saboreando cada sabor como se eu fosse morrer daqui dez minutos. Eu sei que quero minhas oito (ou vinte) horas de sono diárias envoltas da sua pele. E que eu me sinto melhor segura pelo seu braço que deixa meu pescoço encaixado, da sua mão nas minhas costas doloridas, mesmo que você também seja a causa de uma dor ou outra. Mas quero, porque eu sou devota da sua respiração mais pesada e dos meus dedos no meio das suas mechas, do seu cílio que carrega meu mundo e da sua ansiedade em me mostrar o seu mundo e depois ser o centro da minha sanidade. Eu fiz de você um templo, que eu não ouso profanar. Eu fiz de mim uma cama, para que você possa descansar toda a sua culpa e a sua não vontade de precisar acenar e fingir que gosta de tudo e todos ao seu redor.

Então, não questione se eu escolher ficar mais do que o tempo ávido que cruza a vida da gente e marca feito ferro quente a pele- eu fico porque me alimento do teu não-amor que finge me deixar livre, mas que sente dor quando eu resolvo desistir. Eu não tenho medo da maneira como você me toca, profunda e honestamente, todas as vezes que eu pareço que irei estilhaçar no chão. Eu não tenho anseio das horas a fio onde eu sou só a confusão literal de sentimentos e ausências, mas você decide me puxar de volta e colocar meus pés no chão. Eu não me preocupo em confiar em você meus pensamentos mais loucos, a minha vontade diária de não vestir a mesma roupa polida de bons comportamentos e tampouco a honestidade em dizer que eu sou um tanto você. Eu sou tudo o que eu preciso ser por nós, enquanto você é tudo aquilo que eu não planejei na vida. Assim, se ainda houver espaço na sua estante, me deixa te mostrar meu Bukowski amarelado e experimenta me amar, só uma vez, enquanto eu destruo as redomas que criei. Toma só mais uma taça e não me ouve se eu disser que não quero um beijo, ou mais, um bom arrependimento de café da manhã. Me resgata enquanto eu caio sem dor e pena das possíveis cicatrizes futuras. Me lê, como se fosse a primeira vez. Me perdoa, como se fosse a última. Me guarda, como se fosse possível. Aceite meus ossos como vestígio palpável do que eu sinto e que me serve de arma nessa luta que é sobreviver e não saber fazer belas cartas de amor.

 

 

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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