Eu te vejo inteiro

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Você me ama a ponto de conseguir segurar meu soco seco na ponta de facas que me ferem. Você me estanca, cura e sangra, pra poder me lembrar o custo e o barulho mudo que é te desejar num dia frio de meio de ano, querendo morar no seu pulmão esquerdo que é menor, pra eu não ter mais espaços para outra coisa que não seja você me respirando. Amar tanto. Amar teu zelo e teu sofrimento e depois querer orbitar em cada uma das suas animosidades pra dar novidades na minha vida. Eu sou a história que você poderá repetir por anos a fio e sempre haverá algo novo para incluir, para te incluir. Meus dias de conquista, você. Quando o chão tocou meu rosto, você. Quando eu sou algo maior do que eu achei que seria, nós.

Um nó que não pertence. Um nós que não prende. Uma mistura de você em mim e de mim em você, talvez até a cor do meu olho tenha mudado essas horas. Eu te vejo inteiro, porque li Morin e agora não posso mais amar só os pelos do seu braço ou o seu pulso ou a sua mão quando encosta na minha. Eu amo a espécie a qual você pertence, a classe social, os rótulos diversos na sua parede. Eu virei especialista em tudo o que você pode ser capaz de amar de verdade. Eu gosto do sabor do teu cheiro me fazendo parte sua. Faça amor com as minhas ideias e me dê novos caminhos como filho. Sugue meu sangue e me mostre a violência do que é não medir esforços para mergulhar em alguém. Eu poderia morar no fundo do oceano das suas paixões e sequer pensaria no trágico ato de me afogar nas suas lembranças e traumas. Me estoque de você, deixe todas as suas sobras amontoadas no capacho da minha porta ou congele as suas ansiedades para que eu possa tomá-las a qualquer hora do dia.

Eu sou a parte serena da sua crise, mas você não diz. Eu sou o gosto metálico do seu orgulho negando a verdade assustadora que é sentir e ao mesmo tempo engolir isso de novo para não parecer tão frágil. E nessas horas você é meu elo com meus instintos mais básicos, meu dedo indicador acariciando uma cicatriz para me lembrar o que é viver. Você é meu sono pós operatório depois de tirar partes de mim e colocar as suas. Você é a vontade de sair de dentro do meu próprio crânio e morar um pouco na sua língua. Passe óleo nos meus dentes para que eu possa te ferir com mais facilidade. Anestesia as minhas virtudes, para que elas não sejam penosas. Porque se eu precisar dormir mais uma noite sem encostar na sua coxa, talvez eu precise de novos vícios. Me leve para o abismo sádico da sua vontade de enforcar cada ponta de desejo que não pode ser saciado. Me submeta ao teu ciclo inconstante e me faça sua lua, pra te reger. Me coloque no seu mapa, astral e geográfico. Me tire da lista telefônica e me faça presente na sua cama, manhãs de sal e vento, manchas de quem não tem medo de ser inteiro primitivo e depois acordar com todos os livros e teorias enfileirados na mente para justificar o que aconteceu. Seja o acontecimento, depois motivo, por fim a lenda. Mas não fique aí, me vendo reciclar ideias para te fazer querer ainda me olhar mais profundamente.

Esteja aqui nos próximos cinquenta anos, mas me abandone na próxima hora para que eu possa acreditar na liberdade mais um pouco. Trilhe o meu corpo com a ponta dos dedos. Faça de mim seu ócio, seu ofício e depois me alimente de um pouco mais de poesia. Amar você nunca foi uma estação do ano. Mas amar você sempre será a minha pressão arterial, meu endereço e meu desabrigo. Fique um pouco mais em mim. Talvez haja maneiras mais simples de ser sua, mas essa parte eu ainda não aprendi a descrever.

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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