Focas do atlântico

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“Já ouviu dizer que o mundo está acabando?” Você me pergunta enquanto enrola uma mecha do meu cabelo. “Dizem que está acabando porque ninguém cuida de nada direito, mas a verdade é que a gente não cuida nem do que ama, imagina da foca listrada do atlântico? Que eu nem sei se existe mesmo.” Eu poderia tatuar esse diálogo e criar uma tese filosófica sobre ela que iria cruzar o mundo, porque “a gente não cuida nem do que ama”, repetiu-se na minha mente como um ciclo infinito de uma verdade tão sóbria e tão suave, como tudo o que aconteceu naquele dia tão cinza.

“Falar que o dia é cinza, não é meio padrão para pessoas que escrevem como você?” Você me pergunta enquanto eu olho pela sua janela e me pergunto se todas as outras janelas não poderiam ser mais largas no prédio ao lado. “Eu acho que você deveria dizer que o dia está tipo um chão de giz”, e eu rio, dizendo que isso é plágio. O padrão nunca fez meu tipo, mas eu considero todo cliché como uma receita pronta do que funciona. Você concorda com a cabeça e me pergunta: “Funghi funciona para você?” e eu aceno e sinto como se tudo ao meu redor me abraçasse, porque você está no mesmo ambiente que o meu.

“Eu me sinto deslocado em alguns ambientes, sabia?” Você me pergunta enquanto eu tento arrumar o travesseiro no meu pescoço que sempre dói e me causa insônia. Eu cogito ser seu ambiente eterno, para que você possa sentir as minhas dores e me receite alguma simpatia que a sua mãe te ensinou. Mas então eu olho um pouco para o lado e lembro que eu mesma não sei onde ficar, ficar mesmo, estática e firme e com raízes que gerarão frutos e toda essa coisa de escolher pousar eternamente num lugar só. “Você consegue se adaptar em qualquer cantinho, né? Por isso que eu sei que você vai embora um dia. Você não pode ficar presa, jamais.” Eu agradeço por não precisar te alertar sobre isso e você me pede pra segurar esse conselho, “eu não sou burro”.

“Eu te pediria pra ficar hoje, mas eu sei que você não vai fazer, né?” Você me pergunta enquanto eu calço minha segunda bota e não me viro para te responder. Digo que volto na semana que vem, talvez a gente possa ver aquele filme do Coppola que a sua amiga disse ser bom. “Eu posso fazer molho pesto, você gosta, né?” Eu aceno e conto que sempre amei molho pesto com qualquer pasta. Enquanto pego as chaves, a bolsa, meu cachecol companheiro dos dias cinzas, você segura a minha mão e pergunta se eu volto na semana que vem. “Mesmo?” Meu silêncio engole qualquer frase pronta e só consigo te olhar firme, na tentativa de soltar uma confirmação sincera. “Mesmo se o mundo acabar?”

Espero que as focas não morram até lá.

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Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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