Voando baixo

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Eu sei voar baixo no radar, você já deve saber disso.

Quando eu quiser ser encontrada, você saberá. Mas calma, eu não irei te julgar por ter todas as suas certezas prontas para serem mastigadas pelas minhas vontades. Me vira, me toca, me afogue com a sua saliva. Eu posso te perdoar por achar que sabe me definir ou moldar, mas por enquanto, apenas continue voando baixo comigo. Me pede pra ficar de novo e eu fico. Me pede para me descobrir e eu me despedaçarei pouco a pouco, camada por camada, e talvez um dia você saiba o motivo dos alertas de perigo em meus olhos. Mas não espere estar nas capas de jornais, não ache que eu irei pegar na sua mão no almoço em família ou que eu irei te implorar atenção como um ser que necessita se sentir visto. Não. Ninguém precisa nos ouvir ou rotular ou sequer precisa entender. Ninguém.

Eu continuo fora do radar mesmo quando vou deixando uma peça ou outra cair na beirada da sua cama. Mesmo quando eu falo da minha mãe ou mudo meu foco porque eu odeio a memória do que já passou. Eu estou escondida mesmo quando você me ver com ares de quem sabe o que está fazendo- eu nunca sei. Tô voando baixo pra poder ter a paz de te ouvir sussurrar de novo ao meu ouvido: “louca”. Eu digo que não ligo amanhã, você respeita e eu trinco. Ninguém me viu passar, nem sabe onde minha cabeça repousou- mas você sentiu, não sentiu? No seu peito, um pouco abaixo do queixo, eu depositei uma parte minha tão frágil e tão escura que talvez você ainda veja uma marca se focar um pouco mais e perceber que apesar de invisível, eu sangro. Apesar disso, eu queria te pedir pra me envolver no seu braço como se eu já tivesse morado ali. Talvez você consiga arrancar uma parte de mim e guardar, para que eu tenha a certeza de que estarei no seu bolso por um tempo, e eu não estou dizendo que isso é ruim. Mesmo eu não sendo do tipo de pessoa que fica até o café da manhã ou que recusa- querendo aceitar- seus convites de mais um pouco de tempo, talvez haja um modo de te explicar que eu prefiro assumir essa postura do que correr o risco de não haver espaço para mim na sua agenda apertada e no seu medo de se envolver- feito eu.

Eu ainda sigo fora de rastreamento porque eu prefiro te ver sem a máscara dura da rotina, ainda consigo entrar na sua garagem sem ser vista, ainda posso lembrar da história do seu vizinho de porta que talvez nos odeie e lembrar do seu pijama, da sua íris. Estou checando calendários, eu to ouvindo outras teorias, alguma coisa precisa te tirar daqui e eu to fingindo que não quero colidir em você ou passar pela sua rota. Mas me diz, você tem pó de café ou eu levo? Você prefere weiss ou pilsen? Malbec ou pinot? Me prefere polida e requintada ou tudo o que eu sou de verdade, raiz e caos? Me diz, você está disposto a ser meu pouso? Só agora, só por hoje? Ou eu posso não decidir a hora de ir embora?

Você ainda não diz e nem ouve nada. Que pena, nem toda mensagem foi feita para se rastrear.

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